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  • STF suspende multas da NR-1, mas empresas continuam obrigadas a gerenciar riscos psicossociais

    STF suspende multas da NR-1, mas empresas continuam obrigadas a gerenciar riscos psicossociais

    Tempo de leitura: 9 minutos

    Decisão do Supremo Tribunal Federal suspende temporariamente a aplicação de multas relacionadas aos riscos psicossociais previstos na NR-1, mas mantém em vigor todas as obrigações das empresas quanto à gestão da saúde mental no ambiente de trabalho.

    Suspensão das multas não significa suspensão da NR-1

    Não. O Supremo Tribunal Federal não suspendeu a NR-1. A decisão proferida na ADPF 1316 suspendeu apenas a aplicação de multas, autuações e demais penalidades administrativas relacionadas aos riscos psicossociais pelo prazo de 90 dias. Todas as obrigações previstas na norma continuam vigentes, inclusive a identificação, avaliação, prevenção e documentação dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

    Se você leu que o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a NR-1, é importante fazer um esclarecimento: essa interpretação está incorreta.

    A decisão proferida pelo ministro André Mendonça, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1316, não revogou, não alterou e nem adiou a entrada em vigor da Norma Regulamentadora nº 1.

    O que foi suspenso, por um período de 90 dias, foi exclusivamente a aplicação de multas, autuações e demais penalidades administrativas relacionadas às novas exigências sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

    Na prática, isso significa que as empresas continuam obrigadas a cumprir todas as determinações previstas na NR-1, especialmente aquelas relacionadas à identificação, avaliação, documentação e prevenção dos fatores que possam comprometer a saúde mental dos trabalhadores.

    A liminar representa uma pausa temporária na fiscalização sancionatória, mas não elimina a responsabilidade dos empregadores quanto ao gerenciamento dos riscos ocupacionais.

    Para empresários, gestores, Recursos Humanos e Departamento Pessoal, compreender essa diferença é fundamental para evitar interpretações equivocadas que possam gerar passivos trabalhistas e administrativos no futuro.

    O que exatamente o STF decidiu sobre a NR-1?

    A decisão do ministro André Mendonça concedeu medida liminar suspendendo, até 23 de setembro de 2026, a aplicação de multas e demais sanções administrativas decorrentes dos dispositivos da NR-1 que tratam da inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

    Também ficam suspensas, durante esse período, eventuais penalidades já aplicadas com fundamento nessas disposições, desde que estejam diretamente relacionadas às novas exigências sobre riscos psicossociais.

    Segundo o relator, a medida busca criar um ambiente favorável à realização de um procedimento de conciliação entre representantes do governo, empregadores e demais setores envolvidos, permitindo a construção de critérios mais objetivos para fiscalização e aplicação da norma.

    Entretanto, a decisão deixa claro que essa suspensão possui natureza exclusivamente administrativa.

    As obrigações legais permanecem integralmente válidas.

    A NR-1 foi suspensa?

    Não.

    Essa talvez seja a principal dúvida entre empresários desde a divulgação da decisão.

    A NR-1 continua plenamente vigente.

    As empresas continuam obrigadas a implementar ações relacionadas ao gerenciamento dos riscos psicossociais, independentemente da suspensão temporária das penalidades administrativas.

    Em outras palavras, a ausência momentânea de multas não elimina o dever de adequação.

    Essa distinção é especialmente importante porque muitos empregadores podem interpretar equivocadamente a decisão como um adiamento das exigências legais, quando, na realidade, apenas o caráter sancionatório foi temporariamente interrompido.

    Quais obrigações continuam valendo para as empresas?

    Mesmo durante o período de suspensão das multas, permanecem vigentes todas as obrigações estabelecidas pela atualização da NR-1.

    Na prática, as organizações continuam responsáveis por:

    • identificar fatores de riscos psicossociais presentes na organização do trabalho;
    • avaliar os impactos desses fatores sobre a saúde física e mental dos trabalhadores;
    • implementar medidas preventivas e de controle compatíveis com os riscos identificados;
    • registrar as informações no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), quando aplicável;
    • manter documentação atualizada que demonstre a adoção das medidas previstas na legislação;
    • revisar periodicamente os riscos sempre que houver alterações significativas nas atividades desenvolvidas.

    Essas medidas fazem parte da estrutura do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), que permanece plenamente exigível.

    Em termos práticos, o que muda para as empresas?

    Imagine uma empresa que interprete a decisão do STF como uma autorização para adiar todas as adequações exigidas pela NR-1.

    Durante os 90 dias de suspensão das penalidades, ela deixa de revisar seus procedimentos internos, não identifica os riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho e não atualiza o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), quando aplicável.

    Ao término da suspensão, caso as exigências permaneçam em vigor, essa empresa poderá enfrentar fiscalizações sem ter implementado as medidas preventivas necessárias.

    Por outro lado, organizações que utilizarem esse período para fortalecer sua gestão de saúde e segurança do trabalho estarão mais preparadas para demonstrar conformidade, reduzir riscos de passivos trabalhistas e responder com maior segurança a futuras fiscalizações.

    Quais riscos psicossociais continuam obrigatórios na avaliação?

    A atualização da NR-1 ampliou a abordagem tradicional da segurança do trabalho ao reconhecer que fatores relacionados à organização das atividades também podem comprometer a saúde dos trabalhadores.

    Entre os principais riscos psicossociais que devem ser considerados pelas empresas destacam-se:

    • excesso de carga de trabalho;
    • jornadas prolongadas;
    • metas incompatíveis com a capacidade operacional das equipes;
    • assédio moral;
    • assédio sexual;
    • conflitos interpessoais;
    • ausência de autonomia na execução das atividades;
    • estresse ocupacional;
    • fatores ergonômicos com impacto sobre a saúde mental;
    • falhas de comunicação organizacional;
    • ambientes que favoreçam esgotamento físico e emocional.

    A avaliação desses elementos deve integrar o gerenciamento dos riscos ocupacionais da empresa de forma contínua e documentada.

    O prazo de 90 dias deve ser utilizado como oportunidade de adequação

    A própria decisão do STF reforça que a suspensão das penalidades possui caráter temporário.

    Por isso, é recomendado que as empresas aproveitem esse período para concluir as adequações ainda pendentes.

    Os empregadores devem utilizar esse intervalo para revisar documentos, atualizar procedimentos internos e fortalecer seus programas de gerenciamento de riscos.

    Mais do que evitar futuras autuações, esse processo contribui para o fortalecimento da governança corporativa e da cultura preventiva dentro das organizações.

    O maior erro das empresas agora é acreditar que a NR-1 foi adiada

    A suspensão temporária das penalidades administrativas pode transmitir uma falsa sensação de segurança.

    Na prática, algumas empresas podem interpretar que não existe urgência para revisar procedimentos internos, elaborar documentos ou implementar ações relacionadas aos riscos psicossociais. Esse entendimento, contudo, não encontra respaldo na decisão do Supremo Tribunal Federal.

    As obrigações previstas na NR-1 permanecem plenamente vigentes. Caso a suspensão das multas seja encerrada sem alterações relevantes na norma, as empresas que deixarem de realizar as adequações poderão ser fiscalizadas e autuadas pelos órgãos competentes.

    Além disso, a ausência de sanções administrativas durante esse período não impede que situações envolvendo saúde mental sejam discutidas em reclamações trabalhistas, ações indenizatórias ou outros procedimentos judiciais, especialmente quando houver alegações de negligência na gestão dos riscos ocupacionais.

    Em outras palavras, esperar o fim do prazo para iniciar a adequação pode representar um risco maior do que investir desde já na implementação das medidas exigidas pela legislação.

    Empresas devem aproveitar os 90 dias para fortalecer o compliance trabalhista

    Mais do que um período sem multas, a decisão do STF oferece uma oportunidade para que as organizações revisem seus processos internos com maior planejamento.

    Empresas que já iniciaram a implementação das exigências da NR-1 podem utilizar esse intervalo para aperfeiçoar seus procedimentos, enquanto aquelas que ainda não iniciaram a adequação têm a oportunidade de estruturar um plano consistente de conformidade.

    Entre as principais medidas recomendadas estão:

    • revisar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), quando aplicável;
    • atualizar o levantamento dos perigos e riscos ocupacionais;
    • incluir a avaliação dos fatores psicossociais na gestão de riscos;
    • revisar políticas internas relacionadas à saúde e segurança do trabalho;
    • capacitar gestores e lideranças para identificar situações de risco psicossocial;
    • documentar as medidas preventivas implementadas;
    • revisar contratos de prestação de serviços e responsabilidades relacionadas à segurança e saúde ocupacional;
    • fortalecer os canais internos para comunicação e prevenção de situações envolvendo assédio, sobrecarga e conflitos organizacionais.

    Além de atender às exigências legais, essas iniciativas contribuem para a redução de afastamentos, melhoria do clima organizacional e fortalecimento da governança corporativa.

    O que pode acontecer após o término dos 90 dias?

    A liminar concedida pelo STF possui prazo determinado e está vinculada ao procedimento de conciliação instaurado no Núcleo de Solução Consensual de Conflitos (Nusol).

    Durante esse período, representantes do poder público, entidades empresariais e demais interessados poderão discutir critérios mais objetivos para a aplicação das regras relacionadas aos riscos psicossociais previstos na NR-1.

    Ao final do prazo, o processo retornará ao relator para nova análise.

    Entre os possíveis cenários estão:

    • manutenção integral da liminar;
    • alteração parcial das medidas adotadas;
    • revogação da suspensão das penalidades;
    • homologação de soluções consensuais que resultem em ajustes nos critérios de fiscalização.

    Independentemente do desfecho, um aspecto permanece evidente: a tendência de fortalecimento da proteção à saúde mental no ambiente de trabalho dificilmente será revertida.

    Por isso, empresas que utilizarem esse período para aperfeiçoar seus processos internos estarão mais preparadas para qualquer cenário futuro.

    Saúde mental e gestão de riscos ocupacionais deixaram de ser apenas boas práticas

    Durante muitos anos, ações relacionadas ao bem-estar psicológico dos trabalhadores foram tratadas como iniciativas voluntárias de responsabilidade corporativa.

    Com a atualização da NR-1, esse cenário passou por uma transformação significativa.

    A gestão dos fatores psicossociais passou a integrar a estrutura do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), aproximando a saúde mental das políticas de segurança e saúde no trabalho.

    Isso significa que temas como organização das jornadas, comunicação interna, assédio, sobrecarga, conflitos interpessoais e condições de trabalho passaram a exigir uma abordagem técnica, preventiva e documentada.

    Para as empresas, essa mudança representa não apenas uma obrigação normativa, mas também uma oportunidade de fortalecer a cultura organizacional, reduzir afastamentos, melhorar a produtividade e diminuir a exposição a litígios trabalhistas.

    Este tema também interessa às empresas que buscam informações sobre:

    • NR-1 e trabalho híbrido;
    • riscos psicossociais nas empresas;
    • saúde mental no ambiente de trabalho;
    • Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR);
    • Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO);
    • assédio moral como risco ocupacional;
    • burnout relacionado ao trabalho;
    • compliance trabalhista;
    • segurança e saúde ocupacional;
    • prevenção de passivos trabalhistas;
    • fiscalização do Ministério do Trabalho;
    • gestão preventiva de Recursos Humanos.

    Perguntas frequentes sobre a suspensão das multas da NR-1

    O STF suspendeu a NR-1?

    Não. A decisão suspendeu apenas a aplicação de multas e outras penalidades administrativas relacionadas aos riscos psicossociais. A norma continua em vigor.

    As empresas ainda precisam cumprir a NR-1?

    Sim. Todas as obrigações relacionadas à identificação, avaliação, prevenção e documentação dos riscos psicossociais permanecem válidas.

    A suspensão vale para todas as exigências da NR-1?

    Não. A liminar alcança apenas a aplicação de sanções administrativas vinculadas aos dispositivos sobre riscos psicossociais.

    As empresas ainda precisam elaborar ou atualizar o PGR?

    Quando aplicável à atividade desenvolvida, o Programa de Gerenciamento de Riscos deve continuar sendo elaborado e atualizado conforme a legislação.

    Quais fatores psicossociais devem ser avaliados?

    Entre os principais fatores estão excesso de carga de trabalho, jornadas prolongadas, metas incompatíveis, assédio moral e sexual, conflitos interpessoais, estresse ocupacional e outros elementos relacionados à organização do trabalho que possam impactar a saúde mental.

    As ações trabalhistas continuam possíveis durante esse período?

    Sim. A suspensão das multas administrativas não impede que questões relacionadas à saúde mental e às condições de trabalho sejam analisadas pela Justiça do Trabalho quando houver alegações de descumprimento das obrigações legais.

    O que as empresas devem fazer durante os 90 dias de suspensão?

    O período deve ser utilizado para revisar procedimentos internos, atualizar documentos, fortalecer programas de gerenciamento de riscos, capacitar lideranças e implementar medidas preventivas relacionadas aos riscos psicossociais.

    Leituras relacionadas

    Se sua empresa busca aprofundar o tema da gestão preventiva nas relações de trabalho, também podem ser úteis os seguintes conteúdos:

    Empresas devem enxergar o prazo como oportunidade, não como adiamento

    A decisão do Supremo Tribunal Federal trouxe um intervalo temporário sem aplicação de penalidades administrativas, mas não afastou a responsabilidade das empresas pela gestão dos riscos psicossociais previstos na NR-1.

    Interpretar a suspensão das multas como uma paralisação das obrigações legais pode gerar uma falsa sensação de segurança e aumentar a exposição a riscos trabalhistas, previdenciários e administrativos.

    Organizações que utilizarem esse período para revisar processos, fortalecer a documentação e aperfeiçoar seus programas de gestão de riscos estarão mais preparadas para futuras fiscalizações e para um ambiente regulatório cada vez mais voltado à proteção da saúde mental dos trabalhadores.

    Base jurídica

    A análise apresentada neste artigo considera, entre outras normas e decisões:

    • Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1316 – Supremo Tribunal Federal;
    • Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1);
    • Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR);
    • Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO);
    • Normas do Ministério do Trabalho e Emprego relacionadas à segurança e saúde no trabalho.

    Acompanhamento da evolução do tema

    A decisão que suspendeu temporariamente a aplicação das penalidades administrativas relacionadas aos riscos psicossociais possui natureza liminar e foi proferida no âmbito da ADPF 1316, em tramitação no Supremo Tribunal Federal.

    Durante o período de suspensão, será conduzido um procedimento de conciliação para discutir critérios mais objetivos de fiscalização e aplicação da NR-1. Ao término desse prazo, o STF poderá manter, modificar ou revogar a medida liminar, o que poderá impactar diretamente a forma como as empresas deverão cumprir as exigências relacionadas à gestão dos riscos psicossociais.

    Diante desse cenário, é recomendável que empregadores, gestores, profissionais de Recursos Humanos e departamentos jurídicos acompanhem continuamente a evolução da matéria e revisem periodicamente seus procedimentos internos para garantir conformidade com a legislação vigente.

    O que sua empresa deve fazer agora?

    A suspensão temporária das multas administrativas não elimina as obrigações previstas na NR-1. Por isso, este é o momento mais adequado para fortalecer a gestão preventiva e reduzir riscos antes do término do prazo concedido pelo STF.

    As principais providências são:

    Verifique se a empresa está obrigada a manter o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e confirme se o documento está atualizado de acordo com a realidade das atividades desenvolvidas.

    Revise o levantamento de perigos e riscos ocupacionais, incluindo a identificação e a avaliação dos fatores de risco psicossociais relacionados à organização do trabalho.

    Analise se as políticas internas contemplam temas como saúde mental, assédio moral, assédio sexual, gestão de conflitos, excesso de jornada e sobrecarga de trabalho, promovendo ajustes quando necessário.

    Capacite gestores e lideranças para reconhecer sinais de adoecimento psicológico, conduzir situações sensíveis de forma adequada e adotar práticas preventivas compatíveis com as exigências da NR-1.

    Documente todas as medidas implementadas, como treinamentos, revisões de procedimentos, avaliações de riscos e ações preventivas. Em eventuais fiscalizações, a documentação pode demonstrar que a empresa adotou uma postura diligente em relação à segurança e à saúde ocupacional.

    Acompanhe a evolução da ADPF 1316 e das orientações do Ministério do Trabalho e Emprego, pois a decisão do STF possui caráter liminar e poderá sofrer alterações após o encerramento do procedimento de conciliação.

    Antes de implementar mudanças relacionadas à gestão dos riscos psicossociais, é recomendável buscar orientação jurídica especializada, considerando as características específicas da empresa, o setor de atuação e a forma como as atividades são desenvolvidas.

    Sua empresa já está preparada para cumprir as exigências da NR-1 quando a suspensão das penalidades chegar ao fim?

    A suspensão temporária das penalidades administrativas não elimina as obrigações previstas na NR-1 nem reduz a responsabilidade das empresas pela gestão dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.

    Os próximos meses representam uma oportunidade para revisar procedimentos, fortalecer o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), documentar medidas preventivas, capacitar lideranças e estruturar uma política de prevenção alinhada às exigências legais. Empresas que utilizam esse período para aperfeiçoar seus processos tendem a enfrentar futuras fiscalizações com maior segurança jurídica e menor exposição a passivos trabalhistas.

    Independentemente do desfecho da conciliação em andamento no Supremo Tribunal Federal, investir em compliance trabalhista, governança corporativa e gestão preventiva da saúde mental deixou de ser apenas uma boa prática. Trata-se de uma estratégia que contribui para a conformidade legal, a proteção dos trabalhadores e a sustentabilidade das relações de trabalho.

    Cada empresa possui características próprias, e a forma de aplicar as normas trabalhistas pode variar conforme a atividade, a estrutura organizacional e os riscos envolvidos. Por isso, antes de implementar mudanças ou tomar decisões que possam gerar impactos nas relações de trabalho, é recomendável buscar orientação jurídica especializada para avaliar o caso concreto e adotar as medidas mais adequadas. 

  • NR-1 e saúde mental no trabalho híbrido: quais riscos jurídicos as empresas precisam gerenciar?

    NR-1 e saúde mental no trabalho híbrido: quais riscos jurídicos as empresas precisam gerenciar?

    Tempo de leitura: 9 minutos

    A atualização da NR-1 amplia a responsabilidade das empresas sobre os riscos psicossociais também no trabalho híbrido. Entenda os impactos jurídicos e como reduzir a exposição a passivos trabalhistas.

    O que você vai aprender neste artigo

    Neste artigo você entenderá:

    • como a NR-1 passou a exigir o gerenciamento dos riscos psicossociais também no trabalho híbrido;
    • quais fatores podem aumentar a exposição das empresas a passivos trabalhistas;
    • por que a organização do trabalho se tornou um elemento relevante para o compliance trabalhista;
    • quais medidas ajudam a fortalecer a governança e reduzir riscos jurídicos relacionados à saúde mental no ambiente corporativo.

    A gestão dos riscos psicossociais no trabalho híbrido exige das empresas uma atuação preventiva que vai além do cumprimento formal da NR-1.

    Nos últimos anos, o trabalho híbrido consolidou-se como uma realidade para milhares de empresas brasileiras. A combinação entre atividades presenciais e remotas trouxe ganhos de produtividade e flexibilidade, mas também criou novos desafios relacionados à organização do trabalho, à comunicação entre equipes e à gestão da saúde mental dos colaboradores.

    Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), esses desafios passaram a ter uma dimensão jurídica ainda mais relevante.

    Ao incluir os fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), a norma reforça que aspectos como sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por metas, isolamento profissional, falhas de comunicação e conflitos organizacionais devem ser identificados, avaliados e monitorados pelas empresas.

    No contexto do trabalho híbrido, essa exigência ganha ainda mais importância, já que a dinâmica entre equipes presenciais e remotas pode criar situações específicas que aumentam a exposição da empresa a riscos trabalhistas.

    Mais do que atender a uma obrigação regulatória, o desafio passa a ser estruturar uma gestão preventiva capaz de reduzir vulnerabilidades antes que elas se transformem em litígios, afastamentos previdenciários ou pedidos de indenização.

    Por que a atualização da NR-1 merece atenção das empresas?

    A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 representa uma das mudanças mais relevantes dos últimos anos na gestão de saúde e segurança do trabalho. Ao exigir que esses fatores integrem o gerenciamento de riscos ocupacionais, a norma amplia o olhar das empresas sobre a organização do trabalho e reforça a necessidade de uma atuação preventiva voltada à redução de passivos trabalhistas.

    O que são riscos psicossociais segundo a NR-1?

    Os riscos psicossociais são fatores relacionados à organização, às condições e às relações de trabalho que podem afetar a saúde mental, emocional e social dos trabalhadores. A atualização da NR-1 passou a exigir que esses fatores sejam identificados, avaliados e gerenciados dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e, quando aplicável, integrem o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

    Na prática, isso significa que elementos como excesso de demandas, pressão por resultados, assédio, falhas de comunicação, ausência de autonomia e conflitos organizacionais deixaram de ser apenas questões de gestão de pessoas para integrar também a estratégia de prevenção de riscos trabalhistas das empresas.

    Saúde mental também é uma preocupação econômica

    Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos como ansiedade e depressão representam uma das principais causas de perda de produtividade no mundo. Esse cenário demonstra que investir na prevenção dos riscos psicossociais não atende apenas às exigências regulatórias, mas também contribui para a sustentabilidade das organizações.

    Como a NR-1 impacta o trabalho híbrido?

    A atualização da NR-1 não criou regras específicas para o trabalho híbrido.

    Entretanto, ao exigir que os riscos psicossociais integrem o processo de gerenciamento de riscos ocupacionais, a norma alcança também as empresas que adotam modelos flexíveis de trabalho.

    Isso significa que fatores relacionados à forma como o trabalho é organizado passam a ter relevância jurídica.

    No ambiente híbrido, algumas situações merecem atenção especial, como:

    • dificuldade de desconexão entre trabalho e vida pessoal;
    • excesso de reuniões virtuais;
    • comunicação fragmentada entre equipes presenciais e remotas;
    • isolamento de colaboradores que atuam predominantemente em home office;
    • pressão por disponibilidade permanente;
    • sobrecarga decorrente da ausência de limites claros de jornada;
    • diferenças de tratamento entre profissionais presenciais e remotos.

    Esses fatores, quando presentes de forma contínua e sem mecanismos adequados de prevenção, podem contribuir para o adoecimento ocupacional e aumentar a exposição da empresa a questionamentos administrativos e judiciais.

    Por que o trabalho híbrido exige uma gestão diferente dos riscos psicossociais?

    O modelo híbrido modificou profundamente a forma como empresas acompanham suas equipes.

    Se antes muitos sinais de desgaste eram percebidos no ambiente físico, hoje parte dessas situações ocorre de maneira menos evidente.

    Mudanças de comportamento, queda de produtividade, dificuldades de interação, isolamento e excesso de jornada podem passar despercebidos quando não existe uma estrutura adequada de acompanhamento.

    Além disso, a própria NR-1 determina que o gerenciamento de riscos seja um processo contínuo, envolvendo a identificação, avaliação, implementação de medidas preventivas, monitoramento de resultados e revisão periódica das ações adotadas.

    No trabalho híbrido, esse acompanhamento torna-se ainda mais complexo, exigindo métodos estruturados para identificar fatores de risco que nem sempre são perceptíveis à distância.

    Esse cenário amplia a importância da atuação preventiva das lideranças e da integração entre áreas como Recursos Humanos, Segurança do Trabalho e Jurídico.

    Mais do que identificar situações de adoecimento já instaladas, a proposta da NR-1 é estimular uma cultura organizacional voltada à prevenção, permitindo que riscos sejam tratados antes que produzam impactos para trabalhadores e empresas.

    O que a fiscalização poderá analisar na empresa?

    Embora cada fiscalização considere as particularidades de cada organização, é recomendável que as empresas estejam preparadas para demonstrar, entre outros aspectos:

    • como identificam riscos psicossociais;
    • quais medidas preventivas foram implementadas;
    • quais evidências documentam essas ações;
    • como ocorre a participação dos trabalhadores;
    • como a eficácia das medidas é monitorada.

    O maior desafio não é o home office, mas a forma como o trabalho é organizado

    Um dos equívocos mais comuns é associar os riscos psicossociais apenas ao trabalho remoto.

    Na realidade, o foco da NR-1 está na organização do trabalho.

    Independentemente de o colaborador atuar presencialmente, remotamente ou em regime híbrido, fatores como excesso de demanda, ausência de autonomia, metas incompatíveis com a realidade operacional, comunicação inadequada e falhas na gestão podem representar riscos que exigem atenção.

    Por isso, empresas que adotam o modelo híbrido precisam avaliar não apenas onde o trabalho acontece, mas principalmente como ele é planejado, distribuído e acompanhado.

    Essa mudança de perspectiva reforça que a conformidade com a NR-1 depende menos do local da prestação dos serviços e mais da existência de processos estruturados para identificar, documentar e reduzir riscos psicossociais.

    A NR-1 não exige que a empresa cuide da vida privada do trabalhador

    Um ponto importante que costuma gerar interpretações equivocadas é acreditar que a atualização da NR-1 transfere às empresas a responsabilidade pela saúde mental dos trabalhadores em todos os aspectos de suas vidas.

    Não é isso que a norma estabelece.

    O foco da NR-1 está nas condições em que o trabalho é organizado e executado.

    O objetivo é identificar fatores presentes no ambiente laboral que possam contribuir para o adoecimento psicológico, como excesso de demandas, metas incompatíveis, ausência de autonomia, conflitos organizacionais, falhas de comunicação e práticas inadequadas de gestão.

    Isso significa que a empresa não é chamada a diagnosticar doenças ou interferir na vida privada dos colaboradores, mas sim a avaliar se sua organização do trabalho contribui para a criação de riscos psicossociais que possam ser prevenidos.

    Essa abordagem aproxima a NR-1 de uma lógica de gestão de riscos, e não de acompanhamento clínico dos trabalhadores.

    Por que ouvir os colaboradores também faz parte da gestão dos riscos?

    A atualização da NR-1 reforça que a gestão dos riscos ocupacionais não deve ocorrer de forma unilateral.

    A norma prevê mecanismos de consulta e participação dos trabalhadores no processo de identificação e avaliação dos riscos existentes no ambiente de trabalho.

    Na prática, isso significa que empresas precisam criar canais capazes de captar a percepção das equipes sobre fatores que possam comprometer a saúde ocupacional.

    No trabalho híbrido, essa participação torna-se ainda mais relevante, pois muitos fatores de risco não são perceptíveis apenas pela observação da rotina operacional.

    A escuta estruturada dos colaboradores permite identificar situações relacionadas à comunicação, organização das atividades, sobrecarga ou isolamento que poderiam passar despercebidas pelos gestores.

    Mais do que cumprir uma exigência normativa, esse processo fortalece a capacidade da empresa de antecipar vulnerabilidades e implementar medidas preventivas mais eficazes.

    O papel das lideranças na prevenção dos riscos psicossociais

    Em muitas organizações, os riscos psicossociais não decorrem apenas das políticas internas, mas também da forma como a liderança conduz o trabalho cotidiano.

    Gestores exercem influência direta sobre a distribuição de demandas, definição de prioridades, comunicação com as equipes e organização das atividades.

    Por isso, a prevenção prevista na NR-1 depende também da preparação das lideranças.

    Isso não significa transformar gestores em profissionais da área da saúde.

    O papel da liderança consiste em adotar práticas de gestão compatíveis com um ambiente organizacional saudável, identificando fatores que possam aumentar a exposição a riscos ocupacionais e encaminhando situações que exijam tratamento especializado.

    Capacitação contínua, comunicação clara e alinhamento entre objetivos organizacionais e capacidade operacional das equipes tornam-se elementos importantes para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a cultura preventiva.

    Sua empresa consegue demonstrar como identifica e acompanha os riscos psicossociais no trabalho híbrido?

    Essa é uma pergunta que merece reflexão.

    Mais do que afirmar que adota boas práticas, as empresas precisam ser capazes de demonstrar, de forma estruturada, como identificam riscos, implementam medidas preventivas, acompanham seus resultados e revisam continuamente seus processos.

    A existência de políticas internas, registros das avaliações realizadas, treinamentos, programas de prevenção e mecanismos de participação dos trabalhadores fortalece a capacidade da organização de comprovar uma atuação preventiva caso seja submetida a fiscalizações ou questionamentos judiciais.

    Como empresas podem reduzir riscos psicossociais no trabalho híbrido?

    A adequação à NR-1 exige muito mais do que a elaboração de documentos.

    Na prática, empresas precisam incorporar a gestão dos riscos psicossociais à sua rotina de governança.

    Entre as principais medidas estão:

    • revisão da organização do trabalho;
    • avaliação periódica dos riscos psicossociais;
    • fortalecimento dos canais internos de comunicação;
    • participação dos trabalhadores na identificação de riscos;
    • capacitação das lideranças;
    • monitoramento contínuo da eficácia das medidas adotadas;
    • integração entre Recursos Humanos, Segurança do Trabalho e Jurídico.

    Esse conjunto de ações contribui para reduzir riscos trabalhistas e fortalecer a cultura de prevenção dentro da organização.

    Trabalho híbrido, NR-1 e compliance trabalhista caminham juntos

    A atualização da NR-1 reforça uma transformação importante no Direito do Trabalho Empresarial.

    Questões relacionadas à saúde mental deixam de ser tratadas exclusivamente sob a ótica do bem-estar e passam a integrar a gestão estratégica de riscos das organizações.

    Nesse contexto, o compliance trabalhista assume papel fundamental ao estabelecer processos capazes de identificar vulnerabilidades, orientar lideranças, revisar procedimentos internos e fortalecer a governança corporativa.

    Empresas que tratam a NR-1 apenas como uma obrigação documental tendem a atuar de forma reativa.

    Já aquelas que incorporam a gestão preventiva dos riscos psicossociais ao seu modelo de gestão fortalecem a segurança jurídica e reduzem significativamente sua exposição a litígios.

    NR-1 e trabalho híbrido: uma oportunidade para fortalecer a governança corporativa

    A atualização da NR-1 representa muito mais do que uma mudança regulatória.

    Ela convida as empresas a revisarem a forma como organizam o trabalho, gerenciam suas equipes e integram a prevenção de riscos à estratégia empresarial.

    No contexto do trabalho híbrido, esse desafio torna-se ainda mais relevante, pois exige processos estruturados, liderança preparada e mecanismos permanentes de acompanhamento.

    Mais do que cumprir uma obrigação legal, empresas que utilizam esse momento para fortalecer sua governança trabalhista tendem a construir ambientes mais seguros, reduzir passivos e aumentar sua capacidade de adaptação às novas exigências regulatórias.

    Sua empresa já revisou os riscos psicossociais no trabalho híbrido?

    A adoção do trabalho híbrido trouxe ganhos de produtividade e flexibilidade para muitas organizações, mas também criou novos desafios relacionados à gestão de pessoas, comunicação e saúde mental.

    Diante das exigências da NR-1, não basta manter um modelo híbrido funcionando operacionalmente. É necessário verificar se a forma como o trabalho está organizado pode gerar riscos psicossociais capazes de expor a empresa a fiscalizações, autuações e passivos trabalhistas.

    Realizar uma análise preventiva das políticas internas, da atuação das lideranças, da comunicação entre equipes e dos mecanismos de gerenciamento de riscos tornou-se uma medida estratégica para empresas que buscam segurança jurídica e conformidade regulatória.

    Perguntas frequentes sobre a NR-1 e o trabalho híbrido

    A NR-1 também se aplica às empresas que adotam trabalho híbrido?

    Sim. A NR-1 determina que os riscos psicossociais relacionados à organização do trabalho sejam identificados e gerenciados independentemente de a atividade ser exercida presencialmente, de forma híbrida ou remota.

    O trabalho híbrido aumenta os riscos psicossociais?

    Pode aumentar, especialmente quando existem fatores como excesso de jornadas, dificuldade de desconexão, isolamento profissional, comunicação ineficiente ou sobrecarga de trabalho. Esses aspectos devem ser avaliados dentro do gerenciamento de riscos ocupacionais.

    A empresa pode ser responsabilizada por problemas de saúde mental de colaboradores em regime híbrido?

    A responsabilização dependerá das circunstâncias de cada caso. Entretanto, a ausência de medidas preventivas, de políticas internas adequadas e do gerenciamento dos riscos psicossociais pode aumentar significativamente a exposição da empresa a ações trabalhistas.

    O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) deve considerar os riscos psicossociais?

    Sim. Sempre que esses fatores estiverem presentes na realidade da empresa, eles devem ser considerados no gerenciamento de riscos ocupacionais, conforme previsto pela atualização da NR-1.

    A atualização da NR-1 exige apenas mudanças documentais?

    Não. A norma exige uma atuação contínua das empresas na identificação, avaliação, implementação e monitoramento de medidas preventivas relacionadas aos riscos psicossociais, integrando aspectos jurídicos, organizacionais e de gestão de pessoas.

    Como o compliance trabalhista contribui para a adequação à NR-1?

    O compliance trabalhista auxilia as empresas na revisão de políticas internas, na organização de processos, na implementação de medidas preventivas e na redução da exposição a passivos decorrentes do descumprimento das normas relacionadas à saúde e segurança no trabalho.

    Empresas pequenas também precisam cumprir a NR-1?

    Sim.

    Independentemente do porte, todas as empresas sujeitas à NR-1 devem observar as exigências aplicáveis ao gerenciamento dos riscos ocupacionais. A forma de implementação pode variar conforme a realidade de cada organização, mas a obrigação de prevenção permanece.

    Sua empresa está preparada para gerenciar os riscos psicossociais no trabalho híbrido?

    A atualização da NR-1 demonstra que a prevenção deixou de se limitar aos riscos físicos e passou a abranger também a forma como o trabalho é organizado. No modelo híbrido, essa responsabilidade exige processos bem estruturados, integração entre áreas e uma atuação preventiva capaz de reduzir a exposição a passivos trabalhistas antes que eles se concretizem.

    O Noronha e Nogueira Advogados atua de forma consultiva auxiliando empresas na implementação de programas de compliance trabalhista, revisão de práticas de gestão, análise preventiva de riscos psicossociais e adequação às exigências da NR-1, fortalecendo a governança corporativa e a segurança jurídica nas relações de trabalho.

    A prevenção sempre custa menos do que a correção de um passivo trabalhista. Por isso, transformar as exigências da NR-1 em processos jurídicos e de governança bem estruturados pode representar não apenas conformidade regulatória, mas também uma vantagem competitiva para a empresa. 

  • Afastamento por doença do trabalho: Sua empresa conhece (de verdade) os direitos trabalhistas do empregado que precisa se afastar para tratamento?

    Afastamento por doença do trabalho: Sua empresa conhece (de verdade) os direitos trabalhistas do empregado que precisa se afastar para tratamento?

    Tempo de leitura: 6 minutos

    Entenda como funciona o afastamento por doença do trabalho, quais são os direitos do empregado, os deveres da empresa e o impacto da NR-01 a partir de 26 de maio de 2026.

    Deixe eu te colocar em uma situação que acontece todos os dias dentro das empresas:

    Um colaborador bate na porta da sua sala, visivelmente abatido, entrega um atestado médico e diz que precisará se afastar por alguns dias. Você confere a data, encaminha para o RH e segue o dia. Parece simples, rotina de empresa, não é mesmo?!

    Mas, dependendo do motivo desse afastamento, essa “folha de papel” pode significar:

    • Estabilidade provisória no emprego
    • Risco de ação trabalhista
    • Responsabilidade direta da empresa
    • Fiscalização e multa administrativa
    • E, a partir de 2026, enquadramento por descumprimento da NR-01

    É aqui que muitos empresários se surpreendem.

    Porque o afastamento por doença deixa de ser apenas uma questão médica e passa a ser também um tema jurídico, estratégico e financeiro.

    E o cenário muda ainda mais a partir de 26 de maio de 2026, quando a fiscalização da NR-01, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, passa a ser punitiva no que diz respeito aos riscos psicossociais, como saúde mental, assédio, sobrecarga e estresse no trabalho (Ministério do Trabalho e Emprego, Portaria MTE nº 1.419/2024).

    Quando a doença passa a ser “do trabalho”?

    A legislação brasileira diferencia duas situações:

    • Doença comum, sem relação com o trabalho
    • Doença ocupacional, ligada às condições em que o trabalho é prestado

    A doença ocupacional é equiparada ao acidente de trabalho, conforme o artigo 20 da Lei nº 8.213/91.

    E isso muda tudo. Sse ficar comprovado que o ambiente, a rotina, a pressão, o modelo de gestão ou situações como assédio contribuíram para o adoecimento, a empresa entra diretamente no radar jurídico.

    Hoje, já é pacífico que transtornos como depressão, ansiedade e síndrome de burnout podem ser reconhecidos como doenças ocupacionais quando existe nexo entre o trabalho e o adoecimento (TST, Súmula 378, item II).

    Além disso, o próprio INSS reconhece que depressão e outros transtornos mentais podem gerar direito ao benefício por incapacidade temporária quando o trabalhador fica impossibilitado de exercer suas atividades por mais de 15 dias.

    O afastamento deixa de ser apenas uma ausência temporária e passa a gerar:

    • Deveres específicos para a empresa
    • Estabilidade provisória para o empregado
    • Risco de indenização
    • Fiscalização administrativa

    E é exatamente nesse ponto que muitos empresários se perguntam:
    “Mas como eu poderia prever isso?”

    A resposta está na gestão de riscos trabalhistas.

    O que acontece quando o empregado se afasta?

    Na rotina prática, funciona assim:

    • Até 15 dias de afastamento, a empresa paga normalmente o salário
    • A partir do 16º dia, o empregado deve ser encaminhado ao INSS para requerer benefício por incapacidade (Lei nº 8.213/91, art. 60)
    • Se a doença for considerada ocupacional, o retorno ao trabalho gera estabilidade de 12 meses (TST, Súmula 378)

    Essa estabilidade significa que, durante um ano após o retorno, o empregado não pode ser dispensado sem justa causa. Se for, a empresa pode ser condenada a pagar todo o período como indenização.

    Agora pense comigo.

    Se o afastamento decorre de um quadro de depressão associado à sobrecarga, pressão excessiva, metas inalcançáveis ou ambiente hostil, o problema deixa de ser individual. Ele passa a ser organizacional.

    E é exatamente isso que a NR-01 passou a exigir que as empresas enxerguem.

    O que muda com a NR-01 a partir de 26 de maio de 2026

    Desde 2024, o Ministério do Trabalho vem tratando a inclusão dos riscos psicossociais no GRO de forma educativa. Esse período termina em 26 de maio de 2026.

    A partir dessa data, a fiscalização passa a ser punitiva (MTE, Portaria nº 1.419/2024).

    Na prática, isso significa que a empresa deverá:

    • Identificar riscos psicossociais no ambiente de trabalho
    • Inserir esses riscos no inventário do GRO
    • Implementar medidas reais de prevenção
    • Demonstrar que atua para reduzir adoecimentos ligados ao trabalho

    Riscos psicossociais incluem, entre outros:

    • Assédio moral
    • Pressão excessiva e contínua
    • Metas incompatíveis com a realidade
    • Falta de apoio da liderança
    • Ambientes hostis ou inseguros

    Esses fatores já são reconhecidos como gatilhos para doenças mentais relacionadas ao trabalho. Ou seja, a empresa que ignora esses pontos passa a correr não apenas risco trabalhista, mas também administrativo.

    Onde as empresas mais erram nesse tema?

    O erro mais comum é tratar o afastamento como um evento isolado.

    O colaborador adoece, apresenta o atestado, o RH registra, o gestor reorganiza a equipe e a empresa segue em frente e tudo parece resolvido.

    O problema é que, juridicamente, esse afastamento pode ser apenas o primeiro capítulo de uma história maior.

    Muitas empresas:

    • Não investigam a causa do adoecimento
    • Não revisam o ambiente de trabalho após afastamentos recorrentes
    • Não registram nem gerenciam riscos psicossociais
    • Não capacitam líderes para lidar com sinais de sofrimento
    • Não adaptam a rotina no retorno do colaborador

    Quando o trabalhador retorna e adoece novamente, ou ingressa com uma ação alegando que o trabalho causou o problema, a empresa costuma ouvir algo como:

    “Faltou gestão do risco trabalhista. Faltou prevenção. Faltou cuidado com o ambiente.”

    E esse discurso encontra cada vez mais respaldo técnico e jurídico.

    Perguntas frequentes sobre afastamento por transtornos mentais no trabalho

    A empresa pode demitir um funcionário com transtornos mentais relacionados ao trabalho ou isso pode ser considerado demissão discriminatória?

    Depende do contexto. A empresa não está impedida, em tese, de rescindir um contrato de trabalho. O problema surge quando a demissão ocorre em um cenário que revela discriminação ou violação de garantias legais.

    Quando o empregado apresenta transtornos mentais ligados ao trabalho, como depressão, ansiedade ou burnout, e isso é conhecido pela empresa, a dispensa pode ser interpretada como discriminatória, especialmente se:

    • ocorrer logo após o diagnóstico ou o retorno do afastamento;
    • houver indícios de que o adoecimento decorre do ambiente de trabalho;
    • o empregado estiver em período de estabilidade decorrente de doença ocupacional.

    Nesses casos, a Justiça do Trabalho pode determinar a reintegração do empregado ou o pagamento de indenização, entendendo que a dispensa violou a dignidade e a proteção do trabalhador em situação de vulnerabilidade.

    Quando transtornos mentais podem ser reconhecidos como doença ocupacional e gerar responsabilidade para o empregador?

    Transtornos mentais passam a ser considerados doença ocupacional quando fica demonstrado o nexo entre o adoecimento e as condições de trabalho.

    Isso acontece, por exemplo, quando o quadro está associado a fatores como:

    • pressão excessiva e contínua por metas inalcançáveis;
    • jornadas prolongadas sem descanso adequado;
    • ambiente hostil, com humilhações ou assédio moral;
    • ausência de apoio da liderança;
    • sobrecarga permanente de tarefas.

    Quando médicos, peritos ou o próprio INSS identificam essa relação, a doença é equiparada a acidente de trabalho. A partir daí, surgem consequências jurídicas relevantes para a empresa, como:

    • estabilidade provisória de 12 meses após o retorno;
    • possibilidade de indenização por danos morais e materiais;
    • responsabilização por omissão na prevenção dos riscos;
    • maior exposição a autuações administrativas.

    Em outras palavras, o foco deixa de ser apenas o estado de saúde do empregado e passa a ser o ambiente que contribuiu para esse adoecimento.

    Quais orientações práticas podem ser dadas ao empregado com transtornos mentais para proteger seus direitos trabalhistas e evitar prejuízos profissionais?

    Do ponto de vista prático, alguns cuidados são fundamentais:

    • procurar atendimento médico e manter laudos e relatórios atualizados;
    • entregar os atestados dentro do prazo e guardar cópias;
    • comunicar formalmente a empresa sobre o afastamento e o diagnóstico, quando indicado;
    • seguir corretamente as orientações do INSS em caso de afastamento superior a 15 dias;
    • registrar situações de assédio, sobrecarga ou pressão abusiva, com datas, mensagens e testemunhas;
    • ao retornar, solicitar, se necessário, readaptação de funções ou ajustes na rotina, conforme orientação médica.

    Essas medidas ajudam a demonstrar boa-fé, preservar direitos e evitar que o adoecimento resulte em prejuízos profissionais ainda maiores. Elas também são importantes caso seja necessário, no futuro, comprovar que o problema tem relação com o ambiente de trabalho.

    Quais cuidados práticos a empresa precisa adotar para não ser punida pela NR-01?

    Com a NR-01 ganhando força punitiva em 2026, o caminho é claro. A empresa precisa:

    • Mapear riscos psicossociais reais no ambiente
    • Inserir esses riscos no GRO
    • Criar medidas práticas de prevenção
    • Capacitar líderes para identificar sinais de adoecimento
    • Estruturar canais de escuta e acolhimento
    • Planejar o retorno ao trabalho após afastamentos prolongados

    Isso não significa transformar a empresa em clínica, mas sim reconhecer que gestão de pessoas também é gestão de riscos.

    Empresas que se antecipam:

    • Reduzem afastamentos
    • Diminuem ações trabalhistas
    • Evitam multas administrativas
    • Mantêm produtividade
    • Protegem sua imagem institucional

    E fazem isso com inteligência jurídica.

    Uma breve análise sobre o tema

    O afastamento por doença do trabalho envolve três eixos jurídicos principais:

    1. Previdenciário, pagamento, benefício e encaminhamento ao INSS, conforme Lei nº 8.213/91
    2. Trabalhista, estabilidade provisória de 12 meses quando caracterizada doença ocupacional, conforme Súmula 378 do TST
    3. Administrativo, obrigação de gestão dos riscos psicossociais no GRO, conforme NR-01 e Portaria MTE nº 1.419/2024

    A partir de 26 de maio de 2026, a ausência dessa gestão passa a gerar autuação.

    Isso coloca o tema definitivamente no campo da estratégia empresarial. A empresa que ignora o fator humano assume um risco jurídico que hoje é mensurável, previsível e evitável.

    Melissa Noronha – Advogada Trabalhista Empresarial

    Um ponto importante…

    É natural que o empresário pense:

    “Minha empresa nunca teve esse tipo de problema.”
    “Isso acontece em empresas grandes.”
    “Aqui todo mundo é tratado com respeito.”

    Essas percepções são comuns. E muitas vezes são verdadeiras.

    O ponto é que a legislação e a Justiça do Trabalho não trabalham apenas com intenção, mas sim com efeitos e se o ambiente gera adoecimento, ainda que sem má-fé, a responsabilidade pode existir.

    Prevenir não significa assumir erros. Significa cuidar do negócio, antecipar riscos e manter a empresa protegida diante do que pode acontecer.

    Sua empresa já está preparada para lidar juridicamente com afastamentos por doença do trabalho e com as exigências da NR-01 a partir de 2026?

    O Noronha e Nogueira Advogados atua de forma estratégica ao lado de empresas que desejam:

    • Reduzir riscos trabalhistas
    • Estruturar o GRO com segurança jurídica
    • Prevenir adoecimentos ligados ao trabalho
    • Proteger o negócio de passivos futuros

    Entre em contato conosco para uma consultoria personalizada e alinhada à realidade da sua empresa.

    Nossa parceria com as empresas é estratégica e contínua, com foco em três pilares essenciais: prevenção, defesa e gestão de riscos trabalhistas. Trabalhamos para que o Direito do Trabalho seja um aliado da gestão, protegendo o negócio, fortalecendo relações e garantindo segurança jurídica nas decisões.

    Mais do que advogar, atuamos lado a lado com o empresário para construir ambientes de trabalho mais seguros, eficientes e sustentáveis.