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Categoria: Melissa Noronha

  • Escala 12×36, plantões e jornadas especiais: o que muda com o fim da 6×1?

    Escala 12×36, plantões e jornadas especiais: o que muda com o fim da 6×1?

    Tempo de leitura: 7 minutos

    Se a sua empresa trabalha com plantões, escala 12×36, turnos ou outras jornadas especiais, a EC 141/2026 também afeta a organização do trabalho. A emenda criou novos limites de jornada e repouso, mas previu caminhos para regimes que não conseguem funcionar dentro de uma escala 5×2 convencional.

    É justamente sobre essas situações que o governo começou a discutir uma regulamentação específica.

    Isso não significa que toda empresa que tenha dificuldade para adotar o 5×2 poderá simplesmente manter a escala atual.

    A própria EC 141/2026 estabelece como os regimes diferenciados devem se relacionar com os novos limites constitucionais. Por isso, enquanto a regulamentação não é conhecida, a empresa precisa identificar qual regra sustenta cada escala que utiliza e o que precisará ser adaptado.

    Para entender as datas e as mudanças gerais, veja também nosso artigo Aprovado fim da escala 6×1: quando começa a valer e o que as empresas precisam mudar?.

    O que a EC 141/2026 já diz sobre jornadas diferenciadas?

    A EC 141/2026 permite regimes diferenciados, mas estabelece condições para que eles convivam com os novos limites de jornada e repouso.

    O próprio texto constitucional prevê dois caminhos importantes.

    Regime compensatório por negociação coletiva

    O art. 7º, § 2º, permite que convenção ou acordo coletivo estabeleçam, excepcionalmente, regime compensatório para atividades que necessitem de organização diferente da regra geral.

    Nesse caso, devem ser assegurados, na média, dois dias de repouso semanal remunerado dentro do mês-calendário, com pelo menos um deles dentro de cada período máximo de uma semana de trabalho.

    A previsão alcança inclusive trabalhadores submetidos a regimes diferenciados estabelecidos por lei ou norma regulamentadora.

    Portanto, a EC não exige que toda atividade seja organizada exatamente da mesma forma. Mas também não autoriza a empresa a criar, sozinha, qualquer escala que considere conveniente.

    Quando a solução depender do regime compensatório previsto pela própria emenda, a negociação coletiva passa a ter papel central.

    Regimes diferenciados definidos por lei

    O § 3º também permite que a lei estabeleça hipóteses e condições específicas para a duração do trabalho e os dias de repouso.

    Esses regimes, porém, precisam respeitar os limites constitucionais previstos para duração do trabalho, turnos ininterruptos de revezamento e repouso semanal remunerado.

    É essa previsão que ganha importância para atividades que possuem jornadas próprias e não se encaixam naturalmente no modelo convencional de cinco dias de trabalho seguidos por dois dias de descanso.

    O governo pode criar exceções à escala 5×2 por decreto?

    Ainda não é possível afirmar que todas as exceções às novas regras poderão ser criadas por decreto. A EC 141/2026 prevê a possibilidade de regimes diferenciados definidos em lei, e o instrumento que o governo utilizará ainda não foi oficialmente definido.

    Esse ponto merece atenção porque as informações divulgadas até agora não são totalmente uniformes.

    Nas declarações atribuídas à senadora Teresa Leitão, aparecem referências tanto à regulamentação pelo governo quanto à necessidade de uma medida legislativa. O texto definitivo ainda não foi apresentado.

    Além disso, a lei complementar mencionada expressamente no art. 5º da EC 141/2026 possui outra finalidade: estabelecer medidas transitórias para microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.

    Por isso, é importante separar duas questões.

    Uma coisa é o governo regulamentar a aplicação de regras que já estejam suficientemente definidas na Constituição ou na legislação.

    Outra é criar novas hipóteses de regime diferenciado quando a própria Constituição exige que elas sejam estabelecidas por lei.

    Para a empresa, a ausência dessa definição não é motivo para interromper a adaptação. Enquanto uma nova regulamentação não for publicada, continuam valendo os comandos já estabelecidos pela EC 141/2026.

    Todas as empresas terão que adotar a escala 5×2?

    Não. A própria EC 141/2026 admite regimes diferenciados, e o governo já discute uma regulamentação específica para jornadas que, pela forma como o trabalho é organizado, não se encaixam no modelo convencional 5×2.

    Esse é um dos pontos mais importantes para empresas que trabalham com plantões, jornadas especiais ou atividades que precisam funcionar de forma contínua.

    Em 27 de outubro de 2026, a senadora Teresa Leitão, líder do governo no Senado, afirmou que o Ministério do Trabalho discute regras para essas situações. Ao explicar por que a regulamentação é necessária, citou jornadas de plantão e de aeroviários como exemplos de organizações do trabalho que não se ajustam ao 5×2.

    Segundo a senadora, a intenção é estabelecer regras que preservem os direitos criados pela nova emenda sem prejudicar as empresas que precisam contratar empregados dentro desses modelos de jornada.

    Isso significa que regime diferenciado não é sinônimo de manter a antiga escala 6×1.

    A discussão é outra: existem atividades em que organizar o trabalho em cinco dias seguidos de dois dias de folga pode não ser compatível com a própria dinâmica da operação. Nesses casos, será necessário definir como os novos limites de jornada e repouso serão cumpridos dentro de outra distribuição dos dias trabalhados e dos períodos de descanso.

    É justamente por isso que empresas com operações contínuas, plantões ou jornadas especiais não devem simplesmente copiar o modelo 5×2 adotado por uma empresa de expediente convencional.

    Antes de alterar a escala, é necessário identificar qual regra sustenta a jornada atual, verificar o que a EC 141/2026 já permite e acompanhar se aquela atividade será alcançada pela regulamentação que está sendo preparada.

    Até agora, não existe uma lista definitiva de todas as atividades que terão tratamento diferenciado. Jornadas de plantão e de aeroviários foram mencionadas expressamente, mas outras atividades só poderão ser incluídas com segurança quando o texto da regulamentação for conhecido.

    Por isso, uma empresa não deve concluir por conta própria que sua atividade constitui uma exceção ao 5×2. O fato de funcionar aos sábados, domingos, feriados ou durante 24 horas não cria automaticamente um regime excepcional.

     

    A escala 12×36 acabou com o fim da 6×1?

    Não, a EC 141/2026 não extinguiu expressamente a escala 12×36. O art. 59-A da CLT continua prevendo esse regime, mas sua compatibilização com os novos limites constitucionais de jornada e repouso passa a exigir atenção.

    Hoje, a CLT permite que empregado e empregador estabeleçam jornada de 12 horas de trabalho seguidas por 36 horas ininterruptas de descanso, por acordo individual escrito, convenção coletiva ou acordo coletivo.

    Em 2023, o STF julgou improcedente a ADI 5994 e manteve a constitucionalidade da previsão introduzida pela Reforma Trabalhista que permite a pactuação individual escrita da 12×36.

    Esse julgamento, entretanto, ocorreu antes da EC 141/2026.

    A nova questão é como a 12×36 será compatibilizada com os limites constitucionais que passaram a existir depois dessa decisão.

    O problema das 42 horas semanais na escala 12×36

    A escala 12×36 corresponde, em média, a 42 horas semanais.

    Esse número coincide com o limite semanal que passa a valer em 16 de dezembro de 2026, mas surge uma nova questão quando a duração máxima semanal cair para 40 horas, em dezembro de 2027.

    Isso não significa que a escala 12×36 deixará automaticamente de existir. Significa que a forma de compatibilizar esse regime com o novo teto constitucional precisará estar juridicamente sustentada.

    A resposta poderá passar pelas regras específicas da própria emenda, pela legislação aplicável à atividade, pela negociação coletiva quando cabível, pela regulamentação que vier a ser editada e, eventualmente, pela interpretação dos tribunais.

    Por isso, uma empresa que utiliza 12×36 não deve simplesmente concluir que nada muda porque o art. 59-A continua na CLT.

    O correto é revisar desde já como essa jornada está estruturada e acompanhar a definição das regras que afetarão o regime.

    Como ficam os plantões depois do fim da escala 6×1?

    Os plantões não foram simplesmente proibidos pela EC 141/2026, mas precisam ser analisados de acordo com a regra que sustenta cada jornada e com os novos limites constitucionais.

    “Plantão” não corresponde a um único regime jurídico.

    Hospitais, serviços de saúde, segurança, transporte e outras atividades podem utilizar formas diferentes de organização da jornada. Algumas decorrem da CLT, outras de legislação específica, normas regulamentadoras ou instrumentos coletivos.

    É justamente por isso que a empresa não deve analisar apenas o nome dado à escala.

    A pergunta correta é: qual norma autoriza a jornada que a empresa utiliza hoje e ela continua compatível com a EC 141/2026?

    Esse diagnóstico permite identificar quais jornadas podem permanecer como estão, quais precisarão de negociação coletiva e quais dependerão de uma regulamentação específica.

    E os turnos ininterruptos de revezamento?

    Os turnos ininterruptos de revezamento continuam submetidos à proteção específica prevista na própria Constituição.

    O art. 7º, XIV, prevê jornada de seis horas para o trabalho realizado em turnos ininterruptos de revezamento, salvo negociação coletiva.

    A EC 141/2026 preserva expressamente esse limite ao determinar que os regimes diferenciados respeitem os incisos XIII, XIV e XV do art. 7º.

    Por isso, empresas que trabalham com revezamento precisam olhar para duas camadas ao mesmo tempo: a regra constitucional específica dos turnos e os novos parâmetros introduzidos pela emenda.

    Aqui também a negociação coletiva pode assumir papel relevante, mas a análise deve partir da jornada efetivamente utilizada e do instrumento que atualmente a sustenta.

    A empresa deve esperar a regulamentação antes de mudar suas escalas?

    Não. A empresa deve acompanhar a regulamentação, mas não deve depender dela para começar a revisar suas jornadas.

    O primeiro passo não é mudar todas as escalas imediatamente. É saber exatamente o que a empresa tem hoje e onde estão os pontos que poderão exigir adaptação.

    Uma revisão preventiva deve considerar:

    1. Mapeie todas as jornadas utilizadas pela empresa. Identifique 12×36, plantões, turnos, escalas de revezamento e outros regimes diferentes do 5×2, além do número de empregados submetidos a cada modelo.
    2. Identifique o fundamento de cada escala. Verifique se o regime decorre da CLT, de lei específica, acordo individual, convenção coletiva, acordo coletivo ou outra norma aplicável à atividade.
    3. Calcule a duração semanal. Compare a jornada efetivamente praticada com os limites previstos pela EC 141/2026 e antecipe o impacto da redução para 40 horas semanais.
    4. Revise a distribuição dos repousos. Identifique quais escalas já atendem à nova estrutura constitucional e quais poderão precisar do regime compensatório previsto na emenda.
    5. Revise os instrumentos coletivos. Cláusulas incompatíveis com a EC 141/2026 precisam ser identificadas antes que a empresa dependa delas para organizar sua operação.
    6. Antecipe a negociação coletiva quando ela for necessária. Se determinada escala depender do regime compensatório autorizado pela emenda, deixar a negociação para a última hora aumenta o risco operacional.
    7. Acompanhe a regulamentação. Quando as novas regras forem publicadas, a empresa que já tiver esse diagnóstico conseguirá identificar rapidamente o que precisa ajustar.

    Veja também o que perde efeito em 16 de dezembro e como negociar e o que a empresa deve fazer enquanto os questionamentos sobre a emenda continuam.

    Sua empresa utiliza 12×36, plantões ou outras jornadas especiais?

    A discussão sobre a regulamentação das jornadas especiais ainda está em andamento. Mas a empresa já pode identificar onde estão seus riscos.

    Uma escala pode estar prevista na CLT, em legislação específica ou em instrumento coletivo e, ainda assim, precisar ser revista diante dos novos parâmetros constitucionais.

    Quanto mais complexa a operação, maior a importância de revisar as escalas antes que a regulamentação seja publicada. Assim, a empresa consegue identificar antecipadamente quais jornadas podem ser mantidas, quais dependem de negociação coletiva e quais poderão exigir adaptação.

    O Noronha & Nogueira Advogados assessora empresas na negociação, mediação e arbitragem e na consultoria jurídica empresarial, inclusive na revisão preventiva de jornadas, escalas e instrumentos coletivos, com foco na segurança jurídica e na prevenção de passivos trabalhistas.

  • Fim da escala 6×1: a emenda pode ser declarada inconstitucional? O que a empresa deve fazer enquanto isso?

    Fim da escala 6×1: a emenda pode ser declarada inconstitucional? O que a empresa deve fazer enquanto isso?

    Tempo de leitura: 8 minutos

    Sim, existe uma discussão sobre a constitucionalidade de alguns pontos da Emenda Constitucional 141/2026. Mas, para a empresa, a orientação hoje é objetiva: não espere uma eventual decisão do STF para começar a se adaptar.

    A Emenda está em vigor e, enquanto o Supremo Tribunal Federal não decidir de forma diferente, o calendário previsto nela precisa ser cumprido.

    Isso significa que, a partir de 16 de dezembro de 2026, a jornada máxima passa para 42 horas semanais, com dois dias de repouso semanal remunerado. Em dezembro de 2027, a jornada cai para 40 horas. A redução não pode resultar em diminuição do salário.

    Também há outro ponto que exige atenção imediata: dois meses depois da publicação da Emenda, as cláusulas de convenções e acordos coletivos que forem incompatíveis com as novas regras perdem efeito.

    Portanto, ainda que entidades empresariais e especialistas estejam questionando alguns pontos da mudança e exista a possibilidade de o tema chegar ao STF, a empresa precisa trabalhar com a regra que existe hoje.

    A discussão sobre inconstitucionalidade pode produzir efeitos importantes no futuro. Mas ela ainda não produziu nenhum efeito sobre as obrigações da sua empresa.

    O fim da escala 6×1 pode realmente ser derrubado pelo STF?

    Em tese, o STF pode declarar inconstitucional uma parte de uma Emenda Constitucional. Isso já aconteceu anteriormente.

    A própria Constituição estabelece limites ao poder de alteração do seu texto. O artigo 60, § 4º, impede, por exemplo, emendas tendentes a abolir direitos e garantias individuais.

    Em 1993, no julgamento da ADI 939, o STF declarou inconstitucional parte de uma Emenda Constitucional relacionada a matéria tributária.

    Mas é importante separar essa possibilidade jurídica do que efetivamente existe hoje.

    Até o momento, não há decisão do STF declarando inconstitucional qualquer dispositivo da EC 141/2026.

    Por isso, uma empresa não pode decidir manter a jornada anterior simplesmente porque existem críticas à nova regra ou porque acredita que algum dispositivo poderá ser derrubado no futuro.

    Enquanto não houver uma decisão que altere esse cenário, a Emenda 141/2026 continua valendo.

    Quais pontos da EC 141/2026 estão sendo questionados?

    A discussão não envolve apenas a redução da jornada de trabalho. Os questionamentos divulgados até agora atingem pontos específicos da Emenda.

    Um deles envolve a isonomia. O Sistema FAEP, do Paraná, questiona o tratamento dado aos empregados com diploma de nível superior e remuneração igual ou superior a 2,5 vezes o teto do INSS, previsto no artigo 8º da Emenda.

    Outro ponto é o segundo repouso semanal remunerado.

    Parte da advocacia sustenta que a criação desse segundo repouso pode representar um novo encargo para as empresas, especialmente nos contratos de empregados remunerados por hora ou por comissão. A Emenda estabelece o direito, mas não detalha como esse pagamento deverá ser calculado nessas situações.

    Também existe discussão sobre o prazo de transição de apenas dois meses.

    Imagine uma empresa que tenha contratos de longo prazo calculados considerando determinada quantidade de mão de obra e determinada jornada. Se a redução da jornada exigir contratação adicional ou reorganização das equipes, o custo da operação pode mudar antes que seja possível renegociar esses contratos.

    Esse impacto é especialmente relevante para empresas que trabalham com mão de obra dedicada, contratos com preço previamente estabelecido ou atividades em que o valor cobrado do cliente não pode ser simplesmente alterado de uma hora para outra.

    São questões juridicamente relevantes.

    Mas há uma diferença fundamental entre dizer que existem argumentos para questionar uma regra e afirmar que a regra já foi considerada inconstitucional.

    Hoje, estamos no primeiro cenário.

    O fim da escala 6×1 já está sendo contestado no STF?

    Sim, já houve contestação no STF relacionada ao processo legislativo do fim da escala 6×1 e, após a aprovação da EC 141/2026, entidades empresariais passaram a articular uma nova frente para questionar pontos da própria Emenda.

    1. Ação contra a tramitação em regime de urgência

    Antes da promulgação da Emenda, o deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), com apoio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), protocolou uma ação no STF questionando o regime de urgência dado ao projeto do Executivo que tratava do fim da escala 6×1.

    A ação foi distribuída ao ministro André Mendonça. Entre os argumentos apresentados estava a ausência de justificativa concreta para acelerar a tramitação de uma matéria com impacto econômico e social relevante.

    É importante fazer essa distinção: essa ação questionava a forma de tramitação daquele projeto, e não a constitucionalidade da EC 141/2026 que posteriormente foi promulgada.

    2. Articulação de Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI)

    Depois da aprovação da PEC 221/2019 e da promulgação da Emenda Constitucional 141/2026, surgiu uma segunda frente, agora voltada ao próprio conteúdo da Emenda.

    O Sistema FAEP anunciou que está em diálogo com a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) para a apresentação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no STF.

    Um dos argumentos apresentados pelo Sistema FAEP envolve o princípio da isonomia. A entidade questiona a diferenciação prevista para trabalhadores com diploma de nível superior e remuneração acima de 2,5 vezes o teto do INSS, que recebem tratamento diferente em relação aos limites de jornada e ao controle de ponto.

    Além disso, juristas discutem uma questão prática criada durante a transição: como compatibilizar a jornada semanal de 42 horas distribuída em cinco dias com o limite constitucional de 8 horas diárias?

    Se as 42 horas forem simplesmente divididas por cinco dias, a jornada chega a 8 horas e 24 minutos por dia. A própria EC 141 prevê a possibilidade de ampliação da jornada diária por convenção ou acordo coletivo durante essa fase de transição.

    Portanto, existem questionamentos jurídicos relevantes em andamento. Mas isso não significa que a EC 141 tenha sido suspensa.

    Enquanto não houver uma decisão do STF alterando seus efeitos, a Emenda continua em vigor e a empresa precisa cumprir o cronograma previsto.

    Se uma ação for apresentada ao STF, a empresa pode deixar de cumprir a Emenda?

    Não.

    O simples ajuizamento de uma ação no STF não suspende a EC 141/2026.

    Para que alguma regra deixe de produzir efeitos antes do julgamento definitivo, seria necessária uma decisão cautelar do Supremo suspendendo aquele dispositivo.

    E mesmo que futuramente o STF declare algum ponto inconstitucional, ainda será necessário observar qual dispositivo foi atingido, a extensão da decisão e a partir de quando ela produzirá efeitos.

    O Tribunal pode, inclusive, modular os efeitos de uma decisão de inconstitucionalidade.

    Por isso, receber a notícia de que uma ADI foi protocolada não significa que a empresa possa interromper sua adaptação.

    A pergunta correta será outra:

    O STF concedeu alguma decisão que efetivamente mudou aquilo que a empresa precisa cumprir?

    Se a resposta for não, o cronograma continua.

    Vale a pena esperar uma decisão do STF antes de mudar a jornada?

    Não.

    E aqui está talvez a decisão empresarial mais importante neste momento.

    Considere os dois cenários.

    A empresa se prepara para 16 de dezembro, reorganiza suas escalas, calcula custos, revisa as normas coletivas e acompanha as negociações da categoria. Depois, o STF suspende ou modifica algum ponto da Emenda.

    Nesse caso, a empresa faz os ajustes necessários.

    Agora imagine o contrário.

    A empresa decide esperar porque acredita que haverá uma ação no STF. Dezembro chega, não existe decisão suspendendo a Emenda e a organização ainda não definiu suas escalas, não revisou a convenção coletiva, não calculou o impacto das 42 horas e não sabe como reorganizar sua operação.

    O problema deixa de ser teórico.

    Pode significar horas extras, problemas com os repousos semanais, aumento inesperado de custos, necessidade de contratação às pressas e exposição a passivo trabalhista.

    Por isso, preparar a empresa agora não significa ignorar a discussão sobre constitucionalidade.

    Significa não transformar uma possibilidade jurídica futura em uma aposta empresarial presente.

    E se o STF derrubar algum ponto depois que a empresa já tiver se adaptado?

    A empresa ajustará sua operação à decisão que vier a ser tomada.

    Esse é justamente um dos motivos pelos quais não faz sentido paralisar o planejamento.

    Grande parte do trabalho necessário neste momento continuará sendo útil em qualquer cenário.

    Mapear jornadas, identificar empregados afetados, revisar convenções coletivas, calcular custos, estudar escalas alternativas, analisar contratos comerciais e acompanhar a negociação sindical são medidas que a empresa precisará conhecer independentemente do resultado de uma futura ação.

    Se o STF alterar alguma regra, o planejamento será revisto a partir de uma decisão concreta.

    Até lá, não existe decisão concreta para substituir a regra vigente.

    O que a empresa deve fazer enquanto a discussão continua?

    O primeiro passo é tratar 16 de dezembro de 2026 como uma data efetiva, e não como uma data que talvez deixe de existir.

    Escalas, controle de ponto, folha de pagamento e organização das equipes precisam ser planejados considerando a jornada máxima de 42 horas e os dois repousos semanais.

    Também é importante simular o impacto financeiro da mudança.

    Quanto custará manter a operação atual com uma jornada menor? Será necessário contratar? É possível reorganizar turnos? Há empregados horistas ou comissionados? Como diferentes formas de cálculo do segundo repouso afetam a folha?

    Neste último ponto, existe uma incerteza real: a Emenda não detalhou como deverá ser calculado o segundo repouso para determinados modelos de remuneração. Portanto, a empresa pode trabalhar com simulações, mas não deve tratar uma metodologia ainda controvertida como definitivamente estabelecida.

    Outro cuidado está nos contratos comerciais com preço fixo.

    Empresas que prestam serviços intensivos em mão de obra devem verificar se seus contratos possuem mecanismos de revisão de preço diante de alterações legais que aumentem o custo da operação. Quanto antes essa análise for feita, maior será a possibilidade de negociar com o contratante antes que o impacto chegue à folha.

    Também é hora de acompanhar de perto o sindicato patronal, a federação e a confederação da atividade.

    Essas entidades podem participar tanto da discussão judicial quanto da negociação coletiva necessária para adaptar jornadas e escalas à nova realidade.

    E existe ainda um ponto que não deve ser esquecido: as cláusulas de convenções e acordos coletivos incompatíveis com a EC 141 também podem perder efeito em 16 de dezembro.

    Portanto, não basta olhar apenas para a jornada praticada atualmente. A empresa precisa verificar qual é a base jurídica que sustenta essa jornada e se ela continuará válida depois da mudança constitucional.

    A discussão sobre inconstitucionalidade pode ser útil para a empresa?

    Pode, mas não como justificativa para descumprir a Emenda.

    A discussão pode influenciar a atuação das entidades empresariais, futuras negociações coletivas, decisões do STF e até a interpretação de pontos que hoje ainda geram dúvidas.

    A empresa também pode documentar o impacto econômico da mudança: necessidade de novas contratações, aumento do custo da folha, alteração de escalas, impacto em contratos comerciais e dificuldades específicas da atividade.

    Essas informações podem ser importantes nas negociações coletivas e nas discussões institucionais conduzidas pelas entidades representativas.

    O que não recomendamos é transformar esse debate em uma estratégia de espera.

    A empresa pode acompanhar a discussão jurídica e, ao mesmo tempo, cumprir o cronograma. Uma coisa não impede a outra.

    Sua empresa está preparada para 16 de dezembro?

    Neste momento, há duas questões diferentes acontecendo ao mesmo tempo.

    Uma é jurídica: alguns dispositivos da EC 141/2026 poderão ser questionados no STF?

    Sim.

    A outra é empresarial: a empresa pode esperar esse julgamento para começar a se adaptar?

    Não.

    Hoje, a EC 141 está em vigor. A jornada de 42 horas e os dois dias de repouso semanal entram no planejamento das empresas a partir de 16 de dezembro de 2026, e as cláusulas coletivas incompatíveis com a nova regra também precisam ser identificadas.

    Se futuramente houver uma decisão do STF, será necessário analisar exatamente o que foi decidido e quais efeitos essa decisão produzirá.

    Até lá, a estratégia mais segura é trabalhar com aquilo que já existe: revisar jornadas, calcular custos, analisar contratos, acompanhar a negociação coletiva e preparar a operação.

    Assessoria trabalhista para atravessar a mudança com planejamento

    Uma alteração dessa dimensão não afeta apenas a escala de trabalho. Ela pode repercutir na folha, na necessidade de contratação, nos contratos comerciais, nas normas coletivas e no próprio custo da operação.

    Por isso, a preparação não deve começar quando a nova jornada já estiver valendo.

    O Noronha & Nogueira Advogados acompanha as mudanças relacionadas à EC 141/2026 e assessora empresas na análise das jornadas, negociação coletiva, mediação e arbitragem e consultoria jurídica empresarial, com foco na organização da transição e na prevenção de passivos trabalhistas.

    Fontes jurídicas e institucionais

    Fontes consultadas em 23 de outubro de 2026:

    • Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026.
    • Constituição Federal, especialmente arts. 60, § 4º, IV, e 103.
    • Lei nº 9.868/1999, especialmente arts. 10 e 27.
    • Supremo Tribunal Federal, ADI 939.
    • Manifestações e notícias divulgadas entre 15 e 22 de outubro de 2026 sobre as articulações do Sistema FAEP, CNA e CNI relacionadas à EC 141/2026.
  • Fim da escala 6×1: como o comércio está negociando o 5×2 e quais alternativas existem para conter custos

    Fim da escala 6×1: como o comércio está negociando o 5×2 e quais alternativas existem para conter custos

    Tempo de leitura: 8 minutos

    Se a sua empresa tem convenção coletiva, parte dela pode deixar de valer em 16 de dezembro de 2026, e é por isso que o comércio está negociando o 5×2 com tanta pressa.

    A Emenda Constitucional 141 diz que, dois meses depois de publicada, as cláusulas de convenção ou acordo coletivo sobre jornada e folga semanal que forem incompatíveis com a nova regra ficam sem efeito. Ninguém precisa denunciar a convenção nem entrar na Justiça: a perda de efeito é automática.

    Na prática, isso muda duas coisas. Se a nova convenção da sua categoria não ficar pronta até lá, você passa a seguir direto o que diz a Constituição. E alguns arranjos que as empresas querem, como encaixar 42 horas em cinco dias, só ficam seguros com negociação coletiva.

    O assunto já está na pauta do comércio varejista, que, em São Paulo, discute a escala 5×2 antes do Natal, período de maior movimento do setor, e busca alternativas para conter custos com o fim da 6×1. 

    Vamos ver o que está sendo negociado, quais alternativas existem, o que a lei exige de cada uma e o que você deve fazer até dezembro. 

    Para o cronograma completo da emenda, veja nosso artigo Aprovado fim da escala 6×1: quando começa a valer e o que as empresas precisam mudar?.

    O que o comércio de São Paulo está negociando?

    O Sindicato dos Comerciários de São Paulo quer a escala 5×2 para todos, ao menos três domingos de folga por mês e revezamento em alguns setores, para que o vendedor possa trabalhar em pelo menos um domingo e receber comissão. 

    Hoje, segundo a entidade, a categoria tem dois domingos de folga por mês. O sindicato representa cerca de 500 mil trabalhadores e está renegociando as convenções de supermercados, lojas de calçados, floriculturas e atacadistas. Segundo o presidente, Ricardo Patah, a pressa vem do fato de a emenda tirar a validade das cláusulas de jornada em dois meses.

    Do lado das empresas, a conversa ainda está no começo. As entidades patronais participam, mas ainda não há texto final: as assessorias trocam minutas e o reajuste salarial nem entrou na discussão. O sindicato diz que os supermercados serão os primeiros a formalizar a nova jornada, e algumas grandes redes já usam o 5×2 sem reduzir a carga semanal.

    Esse último ponto merece atenção. Manter 44 horas por semana em cinco dias significa 8h48 por dia, mais do que as 8 horas diárias permitidas. Isso só funciona com uma compensação de horas válida.

    Quais alternativas as empresas avaliam para conter custos, e o que a lei exige de cada uma?

    O comércio avalia contratar, usar temporários, fazer revezamento, mudar o horário de funcionamento, automatizar e repassar custos aos preços. Todas podem ser feitas, cada uma com uma exigência legal, e nenhuma permite reduzir salário.

    A emenda proíbe cortar a remuneração, inclusive no piso (art. 2º). Ou seja, a economia precisa vir da organização do trabalho, e não da folha.

    • Contratar mais gente. É o caminho mais seguro do ponto de vista jurídico. O custo é direto: as horas que sobram precisam ser cobertas por alguém.
    • Trabalho temporário. Serve para o pico de fim de ano, não para cobrir a jornada menor o ano inteiro. A lei permite o temporário para demanda complementar de natureza sazonal, como o Natal, por até 180 dias, prorrogáveis por mais 90 (Lei 6.019/1974, arts. 2º e 10). Demanda contínua ou permanente fica de fora, segundo o decreto que regulamenta a lei (Decreto 10.060/2019).
    • Revezamento de equipes. Dá para manter a loja aberta, mas a escala precisa respeitar quatro regras: dois repousos por semana; folga num domingo ao menos uma vez a cada três semanas no comércio (Lei 10.101/2000, art. 6º, parágrafo único); folga dominical quinzenal para as mulheres (CLT, art. 386); e no máximo seis dias seguidos de trabalho (OJ 410 da SDI-1 do TST). Se o vendedor recebe comissão, faça a conta do repouso remunerado antes de implantar, porque ele entra na remuneração (Súmula 27 do TST).
    • Mudar o horário de funcionamento. A decisão é da empresa, mas o horário do comércio é regulado pelo Município (Súmula Vinculante 38 do STF) e pode ter regras na norma coletiva. E há o risco comercial: o cliente com pouco tempo pode migrar para o comércio eletrônico.
    • Banco de horas. Ajuda a absorver picos, mas não substitui a redução do limite semanal. O banco de horas anual exige norma coletiva, e o semestral pode ser combinado por escrito com o empregado (CLT, art. 59, §§ 2º e 5º). A FecomercioSP também lembra que certas modalidades de jornada dependem de negociação coletiva.
    • Automação. Pode reduzir horas em algumas atividades, mas quem continua na operação precisa de escala adequada. Se a ideia é reduzir quadro, analise cada caso antes.
    • Repassar os preços. É decisão comercial, sem trava trabalhista, mas nem todo setor consegue. A ACSP lembra o caso das farmácias, cujos preços de medicamentos são tabelados.

    E o pequeno comércio?

    A FecomercioSP aponta que as empresas menores sentem mais, porque têm equipe enxuta e menos fôlego para contratar ou investir em tecnologia. A emenda prevê que uma lei complementar poderá criar regras transitórias para microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte, condicionadas à manutenção dos empregos (art. 5º). 

    Enquanto essa lei não existir, o texto da emenda não traz regra transitória por porte.

    O que perde efeito em 16 de dezembro?

    Perdem efeito as cláusulas da convenção ou do acordo coletivo sobre jornada e folga semanal que sejam incompatíveis com a emenda.

    Quem determina isso é o art. 3º da EC 141. Na prática, ficam em risco cláusulas que fixam 44 horas semanais, escalas com uma só folga por semana e compensações montadas sobre o sábado trabalhado. As cláusulas que cabem na nova regra, como as de jornada de 40 horas ou menos, continuam valendo.

    Não existe lista oficial do que é “incompatível”. Por isso, a análise precisa ser feita cláusula por cláusula, comparando a convenção com o novo art. 7º, incisos XIII e XV, da Constituição.

    Sobre a data, a emenda fala em “decorridos 2 meses da publicação”, e foi publicada em 16 de outubro de 2026. A maior parte das fontes adota 16 de dezembro; há quem cite 15 de dezembro. Por segurança, deixe escalas e controle de ponto prontos na véspera.

    E se a nova convenção não ficar pronta a tempo?

    Vale o que está na Constituição, aplicado diretamente. 

    A partir de 16 de dezembro, o limite semanal é de 42 horas, o limite diário continua sendo de 8 horas, o empregado tem dois dias de repouso por semana, um deles, preferencialmente, no domingo e o salário não pode cair, nem no piso (art. 2º e parágrafo único).

    Também não conte com a cláusula antiga continuando a valer. A reforma trabalhista proibiu a ultratividade das normas coletivas (CLT, art. 614, § 3º), e, nas cláusulas incompatíveis, a própria emenda retira o efeito.

    Dá para distribuir as 42 horas em cinco dias sem convenção coletiva?

    A emenda prevê a norma coletiva como o instrumento para isso. Sem ela, uma jornada de 8h24 por dia é terreno de risco. 

    A conta é simples: 

    42 horas divididas por cinco dias é igual a 8h24 por dia, acima das 8 horas diárias.

    O art. 7º da emenda diz que, na fase de 42 horas, convenção ou acordo coletivo podem ampliar a jornada diária para viabilizar essa distribuição. Não fala em acordo individual.

    A CLT permite compensação mensal por acordo individual (art. 59, § 6º), mas os tribunais ainda não decidiram se isso sustenta as 8h24 no 5×2. Há quem defenda que não, porque o segundo dia livre passou a ser repouso garantido pela Constituição, e não uma folga dada em troca de horas trabalhadas a mais.

    Sem norma coletiva, sobram dois caminhos: trabalhar 8 horas por 5 dias (40 horas) mantendo o salário, o que antecipa a regra de dezembro de 2027 e tem custo, ou manter as 8h24 e assumir o risco de os 24 minutos diários serem tratados como hora extra. Para manter as 42 horas em cinco dias com segurança, o caminho mais firme é negociar.

    A convenção pode espaçar as folgas aos domingos?

    Pode até certo ponto, e o TST deu dois recados sobre isso em junho de 2026. 

    No comércio, a lei exige que a folga semanal caia num domingo ao menos uma vez a cada três semanas (Lei 10.101/2000, art. 6º, parágrafo único). Para as mulheres, a CLT manda uma escala de revezamento quinzenal que favoreça a folga aos domingos (art. 386). A EC 141 manteve a expressão “preferencialmente aos domingos” e não tratou desse ponto.

    Em 8 de junho de 2026, a Seção de Dissídios Coletivos (SDC) do TST anulou, por 4 votos a 3, uma cláusula de convenção do comércio varejista gaúcho que igualava as regras de folga entre homens e mulheres (processo 0026170-02.2025.5.04.0000). Em decisão divulgada em 23 de junho, a SDC manteve, por unanimidade, a anulação de cláusula de hotéis e restaurantes do Rio Grande do Norte que previa folga dominical a cada três semanas para todos, e rejeitou o argumento baseado no Tema 1.046 do STF (ROT-0001503-12.2024.5.21.0000).

    Não são precedentes vinculantes, e uma das decisões teve placar apertado. Mas o recado é claro: uma cláusula que reduza a folga dominical da empregada abaixo da quinzenal está vulnerável. Além disso, o art. 611-B, inciso IX, da CLT proíbe que norma coletiva suprima ou reduza o repouso semanal. Se a sua empresa funciona todos os dias, vale ler também como o fim da 6×1 pode afetar as jornadas dessas empresas.

    O trabalho em feriados no comércio segue um regime próprio, que continua em disputa judicial para parte do setor, como explicamos em outro artigo.

    A convenção pode criar um regime compensatório de folga?

    Pode, mas só de forma excepcional e dentro dos limites da Constituição. 

    O novo § 2º do art. 7º autoriza convenção ou acordo coletivo a criar um regime compensatório que assegure, em média, dois dias de repouso por mês-calendário, garantindo pelo menos um deles dentro de cada período máximo de uma semana de trabalho. O texto também trata de trabalhadores em regimes diferenciados previstos em lei ou em norma regulamentadora.

    Você não pode adotar esse regime sozinho: ele exige norma coletiva. E já existe um limite conhecido: para o TST, dar a folga depois do sétimo dia seguido de trabalho viola o art. 7º, XV, da Constituição (OJ 410 da SDI-1). O § 2º admite mais de uma leitura sobre como calcular a “média”, e por isso a redação da cláusula faz toda a diferença. Cláusula vaga abre espaço para disputa e para pagamento em dobro das folgas consideradas não concedidas.

    Como negociar quando a convenção da categoria não resolve?

    Sua empresa pode buscar um acordo coletivo direto com o sindicato dos trabalhadores. 

    A CLT permite que os sindicatos profissionais façam acordos coletivos com uma ou mais empresas (art. 611, § 1º), com efeitos dentro da empresa. É útil quando a sua operação foge do modelo geral da categoria.

    Algumas travas valem desde o primeiro rascunho:

    • Salário não pode ser trocado por jornada. A emenda veda redução salarial de qualquer espécie, inclusive nos pisos (art. 2º).
    • A CLT permite negociar a jornada, mas “observados os limites constitucionais” (art. 611-A, I), e esses limites mudaram.
    • A cláusula que reduza salário ou jornada deve prever proteção contra dispensa imotivada durante a vigência do instrumento (art. 611-A, § 3º). Se isso vale quando a redução vem da emenda, e não de uma escolha das partes, ainda não está definido. Peça a análise de um advogado antes de assinar.

    O que fazer até 16 de dezembro?

    Mapeie suas normas coletivas, classifique as cláusulas e tenha um plano pronto para o caso de a negociação não terminar a tempo. Passo a passo:

    1. Levante os instrumentos que valem para a sua empresa. Identifique a convenção ou o acordo de cada categoria que você tem, com data-base e cláusulas de jornada, domingos, compensação, banco de horas e repouso.
    2. Classifique cada cláusula. Separe as claramente compatíveis, as claramente incompatíveis e as duvidosas, e peça análise jurídica das duvidosas.
    3. Acompanhe a negociação da categoria pelo sindicato patronal e avalie se vale negociar um acordo só seu.
    4. Defina o plano B para 16 de dezembro, caso não haja norma coletiva: 8 horas por 5 dias ou outra solução, com o risco calculado.
    5. Revise as escalas de domingo, observando a Lei 10.101/2000 e, para as empregadas, o art. 386 da CLT.
    6. Calcule o custo da mudança, já que o salário não pode cair. Veja também se o fim da 6×1 pode aumentar os custos da empresa.
    7. Documente e comunique. Registre as decisões e avise os empregados por escrito sobre a nova escala.

    Assessoria em negociação coletiva e adaptação de jornadas

    A perda de efeito das cláusulas tem data marcada, e a análise não deve ficar para a última semana: ler a convenção, separar o que continua valendo, acompanhar a negociação e preparar a empresa para o cenário em que o acordo não sai. Uma cláusula mal redigida ou uma escala montada sem base pode gerar horas extras, folgas em dobro e a anulação do que foi combinado.

    O Noronha & Nogueira Advogados assessora empresas na negociação, mediação e arbitragem e na consultoria jurídica empresarial, com foco na prevenção de passivos trabalhistas.

    Dra. Melissa Noronha Marques de Souza
    Sócia Noronha & Nogueira Advogados
    Pós-Graduada em Direito do Trabalho e Direito Processual do Trabalho
    OAB/SP nº 204.130 

    Fontes jurídicas e institucionais

    • Emenda Constitucional nº 141, de 16 de outubro de 2026 (DOU, edição extra de 16/10/2026): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc141.htm
    • Consolidação das Leis do Trabalho, arts. 59, §§ 2º, 5º e 6º, 386, 611, § 1º, 611-A, I e § 3º, 611-B, IX, e 614, § 3º: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452compilado.htm
    • Lei nº 10.101/2000, art. 6º, parágrafo único: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l10101.htm
    • Lei nº 6.019/1974, arts. 2º e 10, e Decreto nº 10.060/2019 (trabalho temporário).
    • Tribunal Superior do Trabalho, SDC, julgamento de 8/6/2026 (processo 0026170-02.2025.5.04.0000) e decisão divulgada em 23/6/2026 (ROT-0001503-12.2024.5.21.0000), notícias institucionais.
    • Tribunal Superior do Trabalho, Orientação Jurisprudencial 410 da SDI-1, e Súmula 27.
    • Supremo Tribunal Federal, Súmula Vinculante 38.
  • Empregada afastada por medida protetiva da Lei Maria da Penha: o que a empresa deve pagar?

    Empregada afastada por medida protetiva da Lei Maria da Penha: o que a empresa deve pagar?

    Tempo de leitura: 6 minutos

    A empresa deve pagar os 15 primeiros dias de afastamento da empregada com carteira assinada quando um juiz criminal determina, com base na Lei Maria da Penha, que ela se afaste do trabalho. A partir do 16º dia, o pagamento passa ao INSS, por meio do Benefício de Afastamento Protetivo, que dispensa perícia médica e carência. 

    A regra vem do Tema 1.370 do Supremo Tribunal Federal e foi regulamentada pela Portaria Conjunta MPS/INSS nº 48, publicada em 9 de outubro de 2026. Ela só se aplica quando a decisão judicial determina o afastamento do trabalho: uma medida protetiva que apenas restringe o agressor não gera essa obrigação.

    A empresa é obrigada a pagar salário à empregada afastada por medida protetiva?

    Sim, mas somente pelos 15 primeiros dias e desde que o juiz tenha determinado o afastamento da empregada do trabalho. No julgamento do Tema 1.370 (RE 1.520.468), o STF decidiu que, para a segurada empregada, a remuneração dos primeiros 15 dias é responsabilidade do empregador e o período seguinte é custeado pelo INSS, independentemente de carência. A Portaria Conjunta MPS/INSS nº 48/2026 repete essa divisão no art. 5º, § 2º.

    A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006, art. 9º, § 2º, II) prevê a manutenção do vínculo trabalhista, por até seis meses, quando o afastamento do local de trabalho é necessário, mas não dizia quem pagaria a remuneração nesse período. Segundo o relator do Tema 1.370, ministro Flávio Dino, a medida configura interrupção do contrato de trabalho: a empregada não presta serviço, e o contrato continua produzindo efeitos, como a contagem do tempo de serviço.

    Toda medida protetiva obriga a empresa a afastar e pagar a empregada?

    Não. A obrigação de pagar nasce da decisão judicial que determina o afastamento do trabalho, e não da simples existência de uma medida protetiva. A Portaria nº 48 exige, como requisito do benefício, decisão do juízo estadual, no exercício da jurisdição criminal, que assegure o afastamento da segurada do trabalho (arts. 2º e 3º, I). Medidas que apenas impõem restrições ao agressor, como a proibição de se aproximar da vítima, não determinam afastamento e, por si sós, não geram o pagamento dos 15 dias pela empresa nem o benefício do INSS.

    O benefício também pressupõe o efetivo afastamento: se a empregada continua trabalhando, não há afastamento a custear nem benefício a ser mantido (art. 3º, § 1º).

    Quem paga a partir do 16º dia e como a empregada recebe?

    O INSS paga a partir do 16º dia, mediante pedido feito pela própria empregada. O Benefício de Afastamento Protetivo tem natureza previdenciária análoga à do auxílio por incapacidade temporária (art. 1º, parágrafo único), dispensa avaliação médico-pericial (art. 3º, § 2º), dispensa carência (art. 3º, § 3º) e é devido pelo período fixado na decisão judicial, limitado a seis meses. Se a decisão não indicar a duração do afastamento, vale o prazo máximo de seis meses (art. 4º).

    O requerimento é apresentado pela empregada nos canais do INSS, com cópia da decisão (art. 6º). Quando o pedido é feito depois do 30º dia do afastamento, o pagamento começa na data do requerimento (art. 5º, § 1º, III). A empresa não é a requerente. Informar à empregada que o pedido cabe a ela, e que existe esse prazo, é uma providência de boa-fé que reduz o risco de ela ficar sem renda e não transfere à empresa a responsabilidade pelo pedido.

    Quando a empresa não precisa pagar os 15 primeiros dias?

    A empresa não paga os 15 primeiros dias quando a trabalhadora não tem vínculo de emprego com ela, quando é empregada doméstica ou quando a decisão judicial não determina afastamento do trabalho. Para a segurada sem relação de emprego, como a contribuinte individual, o STF estabeleceu que o INSS arca com o benefício integralmente. Para a empregada doméstica, a Portaria nº 48 prevê pagamento pelo INSS desde a data do afastamento (art. 5º, § 1º, II). Para a mulher que não é segurada da Previdência Social, a prestação tem natureza assistencial e fica a cargo do Estado, do Distrito Federal ou do Município definido pelo juízo.

    A empresa pode dispensar a empregada afastada ou com medida protetiva?

    Dispensar a empregada por causa da medida protetiva ou do afastamento é juridicamente arriscado e pode ser tratado como dispensa discriminatória. A Lei Maria da Penha assegura a manutenção do vínculo durante o afastamento, mas não prevê expressamente estabilidade depois do retorno. O risco vem da jurisprudência. 

    Em decisão divulgada em agosto de 2026, a Terceira Turma do Tribunal Superior do Trabalho aumentou de R$ 10 mil para R$ 30 mil a indenização de uma copeira dispensada por WhatsApp depois de a empresa saber que ela obtivera medida protetiva contra o ex-companheiro, também empregado no local. O colegiado reconheceu discriminação de gênero e violação da Lei nº 9.029/1995.

    Essa é uma decisão de Turma, fundada nos fatos de um caso, e não cria estabilidade automática para toda empregada com medida protetiva. A medida, nesse processo, era de distanciamento de 100 metros e não de afastamento do trabalho, o que mostra que o risco para a empresa existe mesmo sem ordem de afastamento. 

    Quando dispensa uma empregada nessa situação, a empresa precisa demonstrar motivo legítimo e independente da medida protetiva. 

    E se o agressor trabalha na mesma empresa?

    A empresa deve adotar providências que protejam a empregada sem penalizá-la, respeitando a decisão judicial. 

    No caso julgado pelo TST, a copeira trabalhava das 22h às 6h e o ex-companheiro das 14h às 22h, de modo que se cruzariam na entrada e na saída. 

    Ela pediu a adequação do horário para cumprir a ordem de manter 100 metros de distância. Segundo o relato da trabalhadora, o sócio recusou o remanejamento, afirmou que problemas pessoais deveriam ser resolvidos em casa e a dispensou. 

    O Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região destacou que a empresa, ciente das ameaças e da medida protetiva, não tomou providências para garantir a segurança da empregada.

    Ajustes de horário, de posto ou do fluxo de entrada e saída, combinados com a empregada e sem prejuízo da remuneração, são medidas que a empresa deve avaliar. A situação do empregado apontado como agressor exige análise própria, porque eventual medida contra ele depende dos fatos e das provas.

    A empresa recebe reembolso dos 15 dias pagos ou pode cobrar o agressor?

    Nem o Tema 1.370 nem a Portaria nº 48 preveem ressarcimento à empresa dos 15 primeiros dias pagos. 

    Os textos preveem outra cobrança: o INSS deve ajuizar ação regressiva contra os responsáveis pela violência para recuperar o que pagou (Lei nº 8.213/1991, art. 120, II), de competência da Justiça Federal, e a Portaria determina que a autarquia envie sistematicamente os dados à Procuradoria-Geral Federal (art. 7º). Eventual pretensão da empresa contra o agressor não tem regra específica nesses textos e depende de análise jurídica do caso.

    A portaria regula FGTS, férias e 13º salário durante o afastamento?

    Não expressamente. O Tema 1.370 e a Portaria nº 48 definem quem paga, por quanto tempo e a partir de quando, mas não disciplinam o depósito do FGTS, o período aquisitivo de férias e o 13º salário durante o período pago pelo INSS. Nos 15 primeiros dias, a empresa paga a remuneração e, tratando-se de interrupção do contrato, o período conta como tempo de serviço.

    Para o período seguinte, a Portaria manda aplicar, no que couber, as regras do Regulamento da Previdência Social para o auxílio por incapacidade temporária (art. 9º). 

    O relator do Tema 1.370 ressaltou que o afastamento por violência doméstica equivale, para fins de proteção previdenciária, à incapacidade decorrente de “acidente de qualquer natureza”. 

    Nos afastamentos por acidente do trabalho, o depósito do FGTS continua sendo devido (Lei nº 8.036/1990, art. 15, § 5º); nos afastamentos previdenciários comuns, não. 

    Em qual dessas lógicas o afastamento protetivo se enquadra para o FGTS é um ponto que os textos analisados não resolvem. A empresa deve definir a conduta com apoio jurídico especializado e registrar o critério adotado.

    O que a empresa deve fazer ao receber a ordem de afastamento?

    A empresa deve conferir a decisão judicial, proteger o sigilo da informação, pagar e registrar os 15 primeiros dias, orientar a empregada sobre o pedido ao INSS e evitar qualquer medida de retaliação. Na prática:

    1. Conferir a decisão. Verificar se a ordem determina o afastamento do trabalho, a data de início e a duração. Havendo dúvida sobre a autenticidade ou o alcance da decisão, confirmar com o juízo que a proferiu.
    2. Proteger o sigilo. Restringir o acesso ao menor número possível de pessoas, com RH e jurídico e, apenas no que for indispensável, o gestor imediato, e não comentar a situação com colegas. A decisão deve ficar em arquivo restrito.
    3. Pagar e registrar os 15 primeiros dias. Pagar a remuneração normal e registrar o afastamento e o pagamento na folha, com apoio do departamento pessoal ou da contabilidade.
    4. Orientar sobre o INSS. Informar que o pedido é feito pela própria empregada, nos canais do INSS, com cópia da decisão, e que pedidos feitos depois do 30º dia só geram pagamento a partir da data do requerimento.
    5. Evitar retaliação. Não dispensar, rebaixar, transferir ou reduzir a remuneração da empregada em razão da medida protetiva ou do afastamento.
    6. Avaliar o ambiente de trabalho. Quando o agressor é empregado, trabalha no mesmo local ou frequenta a empresa, definir com a empregada as medidas de segurança.
    7. Registrar o critério adotado nos pontos sem regra expressa, como FGTS, férias e 13º salário.

    Assessoria trabalhista preventiva para afastamentos por medida protetiva

    A ordem judicial de afastamento chega sem aviso e exige decisões rápidas do RH: conferir a decisão, pagar os 15 primeiros dias, proteger a empregada e evitar medidas que possam ser tratadas como discriminatórias. Um erro nessa etapa pode gerar condenação por dano moral e discussões sobre verbas e obrigações acessórias.

    A análise jurídica do caso permite verificar o alcance da decisão, definir o critério para os pontos sem regra expressa, ajustar a rotina de segurança no trabalho e orientar gestores sobre como agir.

    O Noronha & Nogueira Advogados assessora empresas e departamentos de RH na auditoria e no compliance trabalhista e na consultoria jurídica empresarial, com foco na prevenção de passivos trabalhistas.

  • Aprovado fim da escala 6×1: quando começa a valer e o que as empresas precisam mudar?

    Aprovado fim da escala 6×1: quando começa a valer e o que as empresas precisam mudar?

    Tempo de leitura: 14 minutos

    O fim da escala 6×1 não exige que as empresas mudem suas jornadas imediatamente após a aprovação pelo Senado. A transição começa 60 dias após a publicação da Emenda Constitucional: nessa primeira etapa, os empregados abrangidos passam a ter direito a dois dias de repouso semanal remunerado e a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais. Doze meses depois, o limite passa para 40 horas, sem redução salarial.

    Empresas terão uma primeira mudança em 60 dias, com dois dias de descanso e jornada máxima de 42 horas; depois, o limite cairá para 40 horas semanais

    A mudança é relevante para qualquer empresa que hoje organize suas equipes com seis dias de trabalho para um de descanso, mas seu impacto tende a ser ainda maior em atividades que precisam funcionar continuamente ou durante grande parte da semana, como comércio, supermercados, restaurantes, hotéis, hospitais, indústrias e serviços.

    Isso porque acabar com a escala 6×1 não significa necessariamente fechar a empresa dois dias por semana.

    O que muda é a organização da jornada de cada empregado.

    Para manter a operação nos mesmos dias e horários, muitas empresas terão de redistribuir equipes, rever escalas, analisar instrumentos coletivos e calcular se será necessário contratar mais pessoas ou reorganizar horários.

    A escala 6×1 acabou?

    Sim. O texto aprovado pelo Congresso substitui a lógica de seis dias de trabalho para um de descanso pela garantia de dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial.

    O Senado aprovou a PEC 221/2019 em dois turnos no dia 14 de outubro, por 75 votos a 1 em cada votação, mantendo o texto anteriormente aprovado pela Câmara. Por não ter sofrido alteração no Senado, a proposta seguiu diretamente para promulgação.

    Além dos dois dias de repouso, a mudança reduz o limite constitucional da jornada semanal.

    Hoje, a referência geral é de até 44 horas semanais. A nova regra estabelece uma transição até as 40 horas. 

    Para as empresas, portanto, são duas mudanças relacionadas, mas diferentes:

    1. a quantidade de dias de repouso semanal;
    2. o limite máximo de horas trabalhadas na semana.

    Essa distinção será importante na hora de redesenhar as escalas.

    Quando o fim da escala 6×1 começa a valer para as empresas?

    A primeira mudança obrigatória ocorre 60 dias após a publicação da Emenda Constitucional.

    É nessa data que a empresa deverá observar a jornada máxima de 42 horas semanais e os dois dias de repouso semanal remunerado.

    Depois haverá uma segunda etapa.

    Passados mais 12 meses, a jornada máxima será reduzida novamente, agora para 40 horas semanais. O texto mantém o limite de até oito horas diárias, além das possibilidades constitucionais de compensação de horários e redução da jornada mediante acordo ou convenção coletiva.

    Isso significa que a transição completa leva 14 meses.

    Mas, para o empregador, é um erro interpretar isso como se houvesse 14 meses para começar a se preparar.

    A primeira adaptação precisa estar pronta em 60 dias.

    Há um número mínimo de empregados para que a empresa seja obrigada a cumprir o fim da escala 6×1?

    A emenda se aplica a empresas de todos os tamanhos, independentemente do número de funcionários, desde que tenham trabalhadores contratados sob o regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

    Portanto, não existe um “número mínimo” de empregados para que a regra passe a valer. Se o negócio tiver apenas 1 funcionário com carteira assinada, já estará obrigado a cumprir a transição.

    Nota: Sabendo do impacto financeiro sobre os pequenos negócios, o texto da emenda autorizou expressamente que o Congresso crie, posteriormente, uma lei complementar com medidas transitórias específicas para PMEs e MEIs, contanto que essas medidas visem a manutenção dos empregos.

    A empresa já precisa mudar a escala dos empregados?

    Não, as empresas não precisam mudar a escala dos empregados imediatamente.

    Como o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nesta sexta-feira, 16 de outubro de 2026, foi estabelecido um prazo legal de transição para que os empregadores adaptem suas operações.

    A jornada cairá de 44 para 40 horas de uma vez?

    Não. A redução será feita em duas etapas.

    O cronograma obrigatório funciona da seguinte forma:

    • Próximos 60 dias (Até meados de dezembro de 2026): Nada muda de forma imediata. As empresas podem manter a escala atual de 44 horas e o regime 6×1. Esse tempo serve justamente para o planejamento das novas escalas, contratações ou negociações coletivas.
    • A partir de 16 de dezembro de 2026: Entra em vigor a primeira fase obrigatória. A partir desta data, as empresas devem garantir os dois dias de folga na semana (escala 5×2) e a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, sem qualquer redução no salário.
    • A partir de 16 de dezembro de 2027 (14 meses após a promulgação): A jornada máxima de trabalho cai definitivamente para 40 horas semanais, mantendo-se a obrigatoriedade das duas folgas semanais.

    A empresa pode reduzir o salário porque a jornada ficará menor?

    Não. A redução da jornada prevista pela mudança constitucional não autoriza redução salarial.

    O texto determina expressamente que a diminuição da duração do trabalho e o aumento do repouso semanal serão aplicados aos contratos em vigor sem redução salarial nominal, proporcional ou de qualquer outra espécie.

    Esse ponto produz um efeito empresarial importante.

    Se um empregado recebe determinado salário para uma jornada atual de 44 horas e passa a cumprir 42 e posteriormente 40 horas em razão da nova regra constitucional, a empresa não poderá simplesmente reduzir proporcionalmente sua remuneração.

    Portanto, o planejamento não envolve apenas horário.

    Envolve também custo da hora de trabalho, necessidade de cobertura da operação e dimensionamento da equipe.

    O fim da escala 6×1 significa que toda empresa terá de fechar dois dias por semana?

    Não. Os dois dias de descanso pertencem ao empregado. Isso não significa que o estabelecimento precise permanecer fechado nos mesmos dois dias.

    Essa diferença é especialmente importante para empresas que funcionam aos sábados, domingos ou todos os dias da semana.

    Uma operação pode continuar funcionando seis ou sete dias, desde que a empresa organize equipes e jornadas compatíveis com as novas regras e com as demais normas trabalhistas aplicáveis à atividade.

    Na prática, isso pode exigir escalas diferentes entre os empregados.

    Uma equipe pode descansar em determinados dias e outra em dias distintos, preservando o funcionamento do estabelecimento.

    O desafio empresarial será construir essa distribuição sem ultrapassar a jornada máxima e sem desrespeitar o novo direito ao repouso.

    Os dois dias de folga terão de ser sábado e domingo?

    Não. Os dois dias de folga não precisam ser obrigatoriamente no sábado e no domingo.

    A Emenda Constitucional nº 141 de 2026 apenas obriga as empresas a concederem dois dias de descanso por semana, mas dá flexibilidade sobre quais dias serão esses.

    A distribuição das folgas funcionará com base nos seguintes critérios:

    • Preferência pelo domingo: O texto constitucional determina que um dos dias de folga deve ocorrer, preferencialmente, aos domingos.
    • Segundo dia flexível:
      A outra folga pode ser concedida em qualquer outro dia da semana, de acordo com as necessidades operacionais de cada setor. Um funcionário pode folgar no domingo e na segunda-feira, por exemplo.
    • Dias não consecutivos: A lei também não exige que as duas folgas sejam seguidas. Uma empresa pode organizar a escala para dar uma folga na quarta-feira e outra no domingo, contanto que o trabalhador não fique mais de sete dias seguidos trabalhando sem descanso.
    • Acordos coletivos no comércio e serviços: Setores que funcionam de ponta a ponta (como supermercados, shoppings, farmácias, hotéis e hospitais) poderão manter o funcionamento regular nos fins de semana utilizando escalas de revezamento entre as equipes. Convenções e acordos coletivos podem detalhar o calendário de folgas, desde que garantam a média de dois descansos por semana dentro do mesmo mês.

    Portanto, 5×2 não deve ser confundido automaticamente com trabalho de segunda a sexta-feira.

    A empresa poderá distribuir os dois dias de descanso em outros momentos?

    Sim, as empresas têm flexibilidade para distribuir os dias de descanso em outros momentos, contanto que respeitem os limites impostos pela nova legislação trabalhista. [1]

    De acordo com o texto da Emenda Constitucional nº 141 de 2026, a distribuição dos dois dias de descanso segue regras claras:

    • Folgas intercaladas: As duas folgas não precisam ser consecutivas (juntas). O empregador pode definir, por exemplo, um descanso na quarta-feira e outro no domingo, conforme a necessidade operacional. 
    • Limite máximo de dias seguidos: A organização interna deve garantir que o funcionário tenha pelo menos um dia de descanso no intervalo máximo de uma semana de serviço. Isso significa que não é permitido fazer o funcionário trabalhar mais de 7 dias seguidos sem nenhuma folga.
    • Revezamento mensal:
      Para setores comerciais e industriais que funcionam ininterruptamente aos sábados e domingos, a organização das folgas deve ser feita por meio de escalas de revezamento organizadas mensalmente.
    • Acordos e Convenções Coletivas: A PEC abre espaço expresso para que sindicatos e corporações criem regimes compensatórios alternativos. Sob aprovação de norma coletiva, as folgas podem ser acumuladas ou redistribuídas de formas diferentes, desde que o trabalhador atinja, na média do fechamento do mês, o equivalente a duas folgas semanais e os dias devidos sejam compensados integralmente no mesmo mês-calendário.

    O banco de horas resolve a redução da jornada de 44 para 40 horas?

    Não. Banco de horas não pode ser utilizado simplesmente para neutralizar um novo limite constitucional permanente de jornada.

    Essa é uma distinção importante.

    O banco de horas continua sendo um instrumento de compensação de jornada nos limites permitidos pela legislação e pelo instrumento que o instituiu.

    Outra coisa é manter estruturalmente uma jornada acima do novo limite e tratar todas as horas excedentes como se fossem apenas créditos para compensação futura.

    Quando a jornada máxima constitucional cair, a organização normal do trabalho precisará respeitar o novo teto.

    A empresa pode utilizar mecanismos legais de compensação quando cabíveis, mas não deve partir da premissa de que o banco de horas permite conservar indefinidamente uma escala incompatível com a nova regra.

    A empresa poderá simplesmente pagar horas extras e manter a mesma escala?

    Não, a empresa não pode simplesmente pagar horas extras para anular a regra e manter a escala 6×1 tradicional.

    O direito aos dois dias de descanso semanal remunerado passou a ser uma garantia constitucional com a promulgação da Emenda Constitucional nº 141 de 2026.

    A aplicação das horas extras funcionará sob limites rígidos, conforme detalhado pelas regras promulgadas:

    1. A folga virou cláusula pétrea (Direito Constitucional)

    As horas extras e o banco de horas continuam permitidos na legislação, mas apenas para estender a jornada diária temporariamente (respeitando o limite legal de até 2 horas extras por dia). Elas não podem ser usadas de forma permanente para suprimir o segundo dia de descanso obrigatório. Impor o trabalho contínuo de 6 dias pagando a mais de forma fixa configura fraude trabalhista.

    1. A única exceção: Acordos Coletivos

    A única maneira legal de um funcionário trabalhar na escala 6×1 após o período de transição é se houver uma Convenção ou Acordo Coletivo de Trabalho firmado entre o sindicato da categoria e as empresas. 

    Ainda assim, o texto da PEC impõe critérios estritos para que esse acordo seja válido:

    • Compensação no mesmo mês: O dia trabalhado a mais no formato 6×1 precisa obrigatoriamente ser compensado com folga dentro do mesmo mês-calendário.
    • Média mensal: No fechamento do mês, o trabalhador precisa obrigatoriamente somar a média de dois dias de repouso por semana.
    1. A hora extra ficou mais cara

    Como o salário mensal não pode ser reduzido, mas a carga horária semanal cai (de 44h para 42h e, depois, para 40h), o valor do salário-hora aumentou automaticamente em 10%. Como consequência, o custo de qualquer hora extra (que exige o adicional mínimo de 50%) se tornou muito mais elevado para o empregador.

    Convenções e acordos coletivos terão de ser revistos?

    Sim, todas as convenções e acordos coletivos incompatíveis com as novas regras terão de ser revistos.

    A partir de hoje, 16 de outubro de 2026, com a promulgação da Emenda Constitucional nº 141, iniciou-se um processo imediato de renegociação sindical em todo o país. O impacto sobre as normas coletivas vigentes e futuras ocorrerá de duas formas principais:

    1. Perda automática de validade de cláusulas antigas

    Todas as cláusulas vigentes em Convenções Coletivas de Trabalho (CCT) ou Acordos Coletivos de Trabalho (ACT) que determinem ou facilitem jornadas de 44 horas semanais vinculadas à escala 6×1 perderão o efeito jurídico assim que os prazos de transição forem atingidos. Nenhuma regra setorial anterior pode se sobrepor ao novo teto constitucional.

    1. O papel dos sindicatos na transição de 12 meses

    Os sindicatos patronais e de trabalhadores precisarão sentar à mesa nos próximos meses para desenhar novos termos devido à flexibilização permitida pela PEC:

    • Adaptação da jornada diária: Durante os primeiros 12 meses da transição (o período em que o teto cai para 42 horas), a emenda permite que acordos coletivos estabeleçam jornadas diárias superiores a 8 horas para conseguir encaixar a escala de 42 horas semanais sem que as empresas precisem paralisar suas operações, desde que respeitados rigorosamente os dois dias de descanso.
    • Criação de novos regimes compensatórios: Setores complexos como o varejo, hotelaria, saúde e segurança dependem de novas rodadas de negociação coletiva para regulamentar legalmente os modelos de escalas alternativas. A negociação ganhou autorização expressa para moldar esses formatos, contanto que a média mensal preserve as duas folgas por semana.

    Por isso, RH e jurídico precisam mapear desde já quais cláusulas de convenções e acordos tratam de escala, jornada, compensação, banco de horas, domingos e repousos.

    Dependendo da categoria, a adaptação poderá exigir diálogo com o sindicato antes mesmo de a primeira etapa entrar em vigor.

    A escala 12×36 também acaba?

    Não, a escala 12×36 não acaba com as novas regras.

    A Emenda Constitucional nº 141 de 2026 foca no fim do regime 6×1 tradicional e na redução da jornada máxima para 40 horas semanais, mas não proíbe expressamente as escalas especiais já consolidadas na legislação trabalhista.

    O funcionamento da escala 12×36 (onde o empregado trabalha 12 horas seguidas e folga as 36 horas seguintes) continuará ativo sob as seguintes condições:

    • Manutenção para serviços essenciais: Setores que dependem de funcionamento ininterrupto, como saúde (hospitais e pronto-socorros), segurança (vigilantes) e portaria, estão autorizados a manter regimes diferenciados de plantão.
    • Segurança jurídica por negociação: Como a PEC prevê regimes de compensação por meio de convenção ou acordo coletivo, a continuidade prática desse modelo dependerá de ajustes e validações formais entre os sindicatos e as empresas.
    • Jornada média preservada: Na escala 12×36, o trabalhador cumpre cerca de 36 a 48 horas semanais a depender da semana (alternando semanas com 3 ou 4 dias de trabalho). Por sua própria natureza de descanso estendido (onde a pessoa folga mais de 3 dias inteiros por semana), ela já entrega um período de repouso superior ao mínimo exigido pela nova lei.
    • Cálculo de horas extras: Especialistas indicam que, pela regra da 12×36, os feriados trabalhados e os descansos semanais já são considerados legalmente compensados pelo período de 36 horas de folga subsequente. A hora extra continua valendo apenas quando o limite diário de 12 horas de plantão for ultrapassado.

     

    Quem já trabalha 40 horas semanais terá a jornada reduzida novamente?

    Não, quem já trabalha 40 horas semanais (ou menos) não terá direito a uma nova redução na jornada e nem a uma terceira folga automática.

    O impacto para quem já está nessa faixa de horário funciona sob as seguintes regras:

    • Jornadas intocadas: O texto promulgado deixa explícito que jornadas já fixadas em até 40 horas semanais não sofrerão redução proporcional. Se o seu contrato já prevê 40 horas, 36 horas ou menos, ele continuará exatamente igual.
    • Ganho de folga apenas se trabalhava no sábado: A única exceção de mudança para quem faz 40 horas ocorre no formato da escala. Se o profissional cumpre 40 horas divididas em 6 dias (trabalhando um pouco no sábado), a empresa precisará obrigatoriamente concentrar essas 40 horas em 5 dias, garantindo a segunda folga semanal obrigatória.
    • Redução de jornada interna apenas via sindicato: Uma jornada inferior ao novo limite constitucional só poderá ser conquistada no futuro se houver um novo acordo ou convenção coletiva específico da sua categoria profissional prevendo isso.

    O fim da escala 6×1 vale para todas as relações de trabalho?

    Não, o fim da escala 6×1 não vale para todas as relações de trabalho. A Emenda Constitucional nº 141 de 2026 altera as regras gerais da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), mas o próprio texto legal e a natureza dos contratos criam exceções importantes.

    Quem está protegido e entra na nova regra?

    • Trabalhadores de carteira assinada (CLT): É o grupo principal. Vale para funcionários do comércio, indústria, serviços e hotelaria.
    • Empregados domésticos: A regra vale para quem trabalha sob regime integral em residências (como babás, cuidadores, motoristas particulares e caseiros contratados). Eles passam a ter direito ao limite máximo de 40 horas e dois dias de descanso.
       

    Quem fica de fora ou tem regras diferentes?

    Para entender quem não muda automaticamente ou está excluído da PEC, as relações de trabalho dividem-se em grupos:

    1. Relações sem vínculo CLT (não são afetadas)
    • PJ, Autônomos e MEIs: Como prestadores de serviço sob regime de Pessoa Jurídica (PJ) ou autônomos não possuem vínculo de emprego, eles mesmos gerenciam suas próprias rotinas e horários. Nota: Se um MEI tiver um funcionário contratado, esse funcionário passa a ter direito à nova escala.
    • Estagiários: São regidos por uma legislação própria (Lei do Estágio), que já limita a carga horária a, no máximo, 6 horas diárias e 30 horas semanais.
    1. Categorias com regras específicas no texto da PEC
    • Servidores Públicos: Funcionários estatutários federais, estaduais e municipais ficam de fora. Eles são regidos por estatutos próprios, embora a grande maioria já atue em regimes de 40 horas semanais ou menos.
    • Profissionais “Hipersuficientes”: Empregados com diploma de ensino superior que recebam remuneração igual ou superior a R$ 21.118,87. A emenda prevê que a duração do trabalho deles poderá ser definida por negociação direta com o patrão, embora a escala 5×2 média continue assegurada.
    • Cargos de Confiança: Diretores e gerentes com amplos poderes de gestão, que por lei já possuem flexibilidade e não registram ponto eletrônico. Eles mantêm o direito à média de duas folgas, mas sem submissão ao controle rígido de horas semanais.
    1. Serviços contínuos (mantêm escalas especiais)

    Categorias em setores essenciais como saúde (plantonistas 12×36), segurança, vigilância, limpeza urbana e transporte não vão parar de funcionar. Eles podem manter turnos diferenciados, desde que os sindicatos validem o formato via acordo coletivo e garantam a compensação das folgas dentro do mesmo mês

    O que as empresas precisam revisar antes dos primeiros 60 dias?

    Com a promulgação da Emenda Constitucional nº 141 realizada pelo Congresso Nacional, o relógio começou a correr para o setor produtivo. Como os primeiros efeitos jurídicos e operacionais entram em vigor no 61º dia, as empresas têm uma janela curta de 60 dias para realizar uma revisão estrutural profunda.

    Para evitar riscos de passivos trabalhistas, multas e interrupções na operação, os departamentos de Recursos Humanos, Jurídico e Financeiro precisam focar em cinco frentes principais de revisão prioritária:

    1. Remapeamento completo de escalas e turnos

    A primeira medida é realizar um inventário interno de todas as jornadas contratadas.

    • Migração para o modelo 5×2: Mapear quem hoje atua no regime 6×1 e desenhar a nova escala com dois dias de descanso semanal remunerado (DSR).
    • Distribuição da jornada de 42h: Na primeira fase de transição, o limite cai de 44 para 42 horas semanais. A empresa precisa decidir se distribuirá essas 2 horas a menos reduzindo o horário diário ou concentrando a redução em dias específicos (se dividida igualmente em 5 dias, a jornada diária passa a ser de 8 horas e 24 minutes).
    • Escala de revezamento aos finais de semana: Os dois dias de folga não precisam ser consecutivos nem obrigatoriamente no sábado e domingo, mas pelo menos um deles deve ser preferencialmente aos domingos. Setores de comércio e serviços que funcionam aos fins de semana precisam revisar esse revezamento imediatamente.
    1. Parâmetros da folha de pagamento e sistemas de ponto

    Os sistemas de tecnologia (ERP e controle de ponto eletrônico) precisam de novos parâmetros antes do prazo final.

    • Valor do salário-hora: Como a jornada semanal diminui de 44 horas para 42 horas (e caminhará para 40 horas no ano seguinte) sem redução salarial, o valor nominal da hora trabalhada sobe.
    • Cálculo de encargos e variáveis: Os parâmetros de horas extras, adicional noturno, DSR, FGTS e férias precisam ser recalculados com base no novo divisor de horas para evitar pagamentos incorretos.
    1. Convenções e acordos coletivos com sindicatos

    O diálogo sindical torna-se a peça mais estratégica desses 60 dias.

    • Perda de validade de regras antigas: Cláusulas de acordos vigentes sobre banco de horas, compensações ou turnos que sejam incompatíveis com o teto de 42 horas e dois DSRs perdem a validade jurídica automaticamente no 61º dia.
    • Negociação de regimes compensatórios: A emenda permite que, excepcionalmente por meio de convenção ou acordo coletivo, sejam adotadas escalas diferentes da 5×2 (inclusive mantendo dias a mais de trabalho, desde que compensados com folgas dentro do mesmo mês-calendário e respeitando as duas folgas semanais médias). As empresas devem procurar os sindicatos para pactuar esses aditivos antes do fim do prazo.
    1. Contratos com terceirizados e fornecedores

    Empresas que contratam serviços de terceiros (como facilities, segurança, limpeza e logística) precisam sentar à mesa com seus fornecedores. 

    • Pedidos de reequilíbrio econômico: Como esses contratos costumam ser precificados por postos de trabalho baseados em 44 horas semanais, as prestadoras de serviço repassarão a alta de seus custos operacionais. É preciso revisar esses contratos e os SLAs (Acordos de Nível de Serviço) para entender o impacto financeiro no orçamento da empresa. 

    Nota: Prestadores diretos de serviços para a administração pública têm prazos diferenciados de até 12 meses, mas o setor privado deve se adequar em 60 dias. 

    1. Análise de capacidade operacional e orçamento (margem marginal)

    A diretoria financeira e de operações precisa definir a estratégia de sobrevivência do negócio sob os novos custos:

    • Contratar vs. pagar hora extra vs. reduzir horário:
      Avaliar o fluxo de clientes nos horários de pico e ociosidade. O empresário precisará calcular se vale mais a pena absorver a janela de horas vagas com novas contratações, arcar com o limite legal de até 2 horas extras diárias por funcionário ou simplesmente reduzir o horário de funcionamento do estabelecimento (como fechar mais cedo ou não abrir em certos dias).

    A empresa deve esperar a regulamentação para começar a se preparar?

    Não. Há pontos que ainda poderão receber regulamentação, mas os elementos centrais da mudança já estão definidos.

    A empresa já sabe que haverá dois dias de repouso semanal remunerado, que a jornada máxima cairá primeiro para 42 horas e depois para 40 horas e que a redução não poderá diminuir o salário.

    Isso já é suficiente para começar o diagnóstico.

    O que não seria prudente é implementar agora soluções definitivas para situações especiais que ainda dependam de regulamentação.

    Planejamento e execução são momentos diferentes.

    Fim da escala 6×1: o prazo é de transição, não de espera

    Para empresas, talvez esse seja o ponto mais importante da mudança.

    A redução completa para 40 horas será gradual, mas a primeira obrigação chega muito antes: 60 dias após a publicação da Emenda Constitucional.

    Empresas que hoje utilizam 6×1 ou jornadas de 44 horas precisam aproveitar esse intervalo para entender como a mudança afetará pessoas, turnos, folha de pagamento, normas coletivas e continuidade da operação.

    A questão não é simplesmente “qual escala substituirá a 6×1?”.

    Para cada empresa, a pergunta correta será: como reorganizar a operação para assegurar dois dias de repouso, cumprir os novos limites de jornada e continuar atendendo às necessidades do negócio?

    Como preparar a empresa para o fim da escala 6×1?

    A adaptação exige mais do que alterar horários no sistema de ponto.

    É preciso revisar contratos e instrumentos coletivos, mapear jornadas atuais, projetar a cobertura necessária para cada operação, avaliar banco de horas e horas extras, identificar regimes especiais e acompanhar a regulamentação que ainda poderá atingir categorias ou empresas específicas.

    O Noronha & Nogueira Advogados atua na assessoria trabalhista empresarial e pode auxiliar empresas na análise das novas regras, na revisão das escalas e na construção de uma transição juridicamente segura e compatível com a realidade da operação.

    Referências oficiais

    PEC 221/2019; Câmara dos Deputados; Senado Federal e texto aprovado pelo Congresso Nacional. A Câmara aprovou a proposta em dois turnos em maio de 2026 e o Senado concluiu a votação em 14 de outubro, mantendo o mesmo texto, o que permitiu seu encaminhamento direto à promulgação.

  • Estágio pode gerar vínculo empregatício? Entenda o risco também no contrato de aprendizagem

    Estágio pode gerar vínculo empregatício? Entenda o risco também no contrato de aprendizagem

    Tempo de leitura: 8 minutos

    Sim. O estágio pode gerar vínculo empregatício quando a empresa deixa de cumprir os requisitos da Lei 11.788/2008. No contrato de aprendizagem, que já é uma modalidade especial de contrato de trabalho, o descumprimento das exigências legais também pode levar à descaracterização da contratação especial.

    Decisão do TST mostra por que a empresa precisa acompanhar não apenas os documentos, mas a execução dos contratos de estágio e aprendizagem

    Uma decisão recente da 1ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho chama a atenção justamente para esse risco. O TST manteve o reconhecimento de um único vínculo de emprego de uma trabalhadora que havia sido contratada inicialmente como aprendiz e, posteriormente, como estagiária. Nos dois períodos, a Justiça do Trabalho concluiu que a finalidade educativa das modalidades não havia sido respeitada.

    Para as empresas, o caso traz um alerta que vai além da elaboração correta dos contratos: não basta contratar formalmente um aprendiz ou um estagiário. A rotina efetivamente desenvolvida precisa permanecer compatível com a modalidade contratual durante toda a relação.

    Estágio pode gerar vínculo empregatício?

    Sim. A própria Lei do Estágio estabelece que o descumprimento dos requisitos legais pode caracterizar vínculo de emprego entre o estudante e a empresa concedente.

    O estágio é definido pela Lei 11.788/2008 como um ato educativo escolar supervisionado desenvolvido no ambiente de trabalho. Portanto, sua finalidade não é simplesmente fornecer mão de obra à empresa, mas contribuir para a preparação profissional do estudante.

    Para que o estágio não crie vínculo empregatício, o art. 3º da lei exige, entre outros requisitos, matrícula e frequência regular do estudante, celebração de termo de compromisso entre estudante, empresa e instituição de ensino e compatibilidade entre as atividades efetivamente realizadas e aquelas previstas no termo.

    Além disso, deve existir acompanhamento efetivo por professor orientador da instituição de ensino e por supervisor da parte concedente.

    A consequência do descumprimento é expressamente prevista pela legislação. O art. 15 determina que a manutenção de estagiários em desconformidade com a Lei 11.788/2008 caracteriza vínculo de emprego com a parte concedente para fins trabalhistas e previdenciários.

    Por isso, ter um Termo de Compromisso de Estágio assinado não é suficiente se aquilo que ocorre diariamente dentro da empresa não corresponde ao estágio formalizado.

    Contrato de aprendizagem também pode ser descaracterizado?

    Sim. Mas estágio e aprendizagem não devem ser tratados juridicamente como se fossem a mesma modalidade.

    Diferentemente do estágio, o contrato de aprendizagem já é um contrato de trabalho.

    O art. 428 da CLT o define como contrato de trabalho especial, ajustado por escrito e por prazo determinado, no qual o empregador deve assegurar ao aprendiz formação técnico-profissional metódica compatível com seu desenvolvimento, enquanto o aprendiz executa as tarefas necessárias a essa formação.

    Sua validade depende do cumprimento de requisitos próprios, incluindo inscrição em programa de aprendizagem desenvolvido sob orientação de entidade qualificada em formação técnico-profissional metódica. Para quem ainda não concluiu o ensino médio, a CLT também exige matrícula e frequência escolar.

    O Ministério do Trabalho e Emprego reforça que a aprendizagem profissional combina formação teórica e experiência prática, cabendo às entidades formadoras a formação teórica e às empresas a experiência prática relacionada ao programa.

    Portanto, o problema jurídico não é transformar um aprendiz, que já é empregado, em alguém que possui vínculo empregatício. O risco é descaracterizar o regime especial de aprendizagem quando seus requisitos e sua finalidade formativa não são observados.

    Essa diferença é essencial para que a empresa avalie corretamente cada contratação.

    Por que o TST reconheceu o vínculo de emprego após contratos de aprendizagem e estágio? 

    O TST manteve o reconhecimento de um único vínculo de emprego porque a Justiça do Trabalho constatou que tanto o contrato de aprendizagem quanto o estágio haviam sido executados sem atender aos requisitos e à finalidade formativa exigidos para essas modalidades.

    Segundo o caso divulgado pelo próprio Tribunal Superior do Trabalho, a trabalhadora foi contratada inicialmente como aprendiz por um ano e, na sequência, permaneceu na empresa como estagiária por aproximadamente mais um ano, exercendo atividades administrativas.

    No período de estágio, a Justiça do Trabalho identificou a ausência de acompanhamento, supervisão e avaliação pela instituição de ensino. Também não ficou demonstrado que as atividades efetivamente desempenhadas contribuíam para a formação acadêmica da estudante.

    Já durante a aprendizagem, foram constatadas irregularidades como jornada superior ao limite aplicável ao caso, realização de horas extras, ausência de treinamento estruturado e de acompanhamento pedagógico. A decisão regional registrou ainda que, na prática, a trabalhadora desempenhava as mesmas atividades realizadas pelos demais empregados, sem um programa efetivo de desenvolvimento de competências profissionais.

    Diante desse conjunto de circunstâncias, o Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região considerou inválidas as duas modalidades contratuais e reconheceu um único vínculo de emprego durante todo o período.

    Ao analisar o recurso da empresa, a 1ª Turma do TST manteve a decisão. Como a conclusão do Tribunal Regional estava fundamentada nas provas produzidas no processo, modificá-la exigiria novo exame de fatos e provas, o que não é admitido nessa fase processual.

    Isso não significa que contratar uma pessoa primeiro como aprendiz e depois como estagiária seja automaticamente irregular. O que levou ao reconhecimento do vínculo, nesse caso, foi a constatação de que os requisitos próprios de ambas as modalidades não haviam sido efetivamente observados.

    Fonte do caso: Tribunal Superior do Trabalho, notícia “Fraude em contratos de aprendizagem e de estágio garantem vínculo de emprego a trabalhadora”, publicada no portal oficial do TST.

    A empresa pode contratar uma pessoa como aprendiz e depois como estagiária?

    A sucessão entre um contrato de aprendizagem e um estágio não foi considerada ilícita pelo TST simplesmente por existir. O problema analisado no processo foi a falta dos requisitos necessários para a validade de cada modalidade.

    Esse é um dos cuidados mais importantes na interpretação da decisão.

    Aprendizagem e estágio possuem fundamentos, requisitos e finalidades próprios. Se uma pessoa deixa de ser aprendiz e posteriormente passa a preencher os requisitos para realizar um estágio, a análise jurídica precisa ser feita sobre a regularidade de cada relação.

    O risco aumenta quando há apenas uma alteração formal do contrato, enquanto as atividades, responsabilidades e dinâmica de trabalho permanecem essencialmente as mesmas e não se consegue demonstrar a finalidade formativa exigida pela nova modalidade.

    Foi justamente a realidade da prestação dos serviços que teve relevância no processo julgado pelo TST.

    Portanto, antes de realizar uma contratação sucessiva dessa natureza, a empresa deve verificar se existem efetivamente os pressupostos para a nova modalidade, e não apenas substituir um instrumento contratual por outro.

    Ter contrato de estágio assinado é suficiente para proteger a empresa?

    Não. O contrato é necessário, mas precisa corresponder ao que acontece na prática.

    Esse é um ponto particularmente importante para o RH.

    Uma empresa pode iniciar um estágio com toda a documentação aparentemente organizada e, ao longo dos meses, permitir que a rotina do estudante se afaste do plano originalmente estabelecido.

    Imagine, por exemplo, que determinadas atividades tenham sido previstas no termo de compromisso por serem compatíveis com a formação acadêmica do estudante. Com o passar do tempo, a área começa a atribuir outras tarefas e responsabilidades sem verificar sua relação com o estágio.

    O documento continua existindo. Mas a realidade mudou.

    A Lei 11.788/2008 exige expressamente compatibilidade entre as atividades desenvolvidas e aquelas previstas no termo de compromisso, além do acompanhamento efetivo do estágio.

    Por isso, a gestão empresarial não deve terminar quando o termo é assinado.

    O que pode descaracterizar um estágio?

    O estágio pode ser descaracterizado quando deixa de atender aos requisitos da Lei 11.788/2008 ou às obrigações assumidas no termo de compromisso.

    Entre os pontos que merecem acompanhamento da empresa estão a regularidade da matrícula e frequência do estudante, a existência e atualização do termo de compromisso, a compatibilidade entre as atividades previstas e executadas, o acompanhamento por supervisor, a participação da instituição de ensino, os relatórios periódicos e o cumprimento da jornada aplicável.

    A jornada, por exemplo, deve constar do termo de compromisso, ser compatível com as atividades escolares e respeitar os limites previstos na legislação para cada situação. Para estudantes do ensino superior, da educação profissional de nível médio e do ensino médio regular, a regra geral é de até seis horas diárias e 30 horas semanais.

    A análise, entretanto, não deve se transformar em mera conferência documental.

    Uma pasta impecavelmente organizada não corrige uma rotina incompatível com o estágio.

    O que a empresa deve acompanhar durante o contrato de aprendizagem?

    No contrato de aprendizagem, a atividade prática desenvolvida dentro da empresa precisa permanecer integrada à formação técnico-profissional metódica que justifica essa modalidade especial de contratação.

    Isso significa que RH, gestores responsáveis e entidade formadora não devem atuar de maneira desconectada.

    A empresa precisa observar o programa de aprendizagem, as atividades teóricas e práticas, a jornada aplicável, a frequência quando exigida, as atividades efetivamente desempenhadas e sua correspondência com a formação profissional proposta.

    A aprendizagem não deve funcionar apenas como uma forma diferente de preencher uma vaga operacional comum.

    Em orientação atualizada em 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego destaca justamente a integração entre curso de aprendizagem, entidade formadora e experiência prática proporcionada pela empresa.

    Quando essa dimensão formativa desaparece da rotina, a empresa passa a se afastar da própria estrutura jurídica que sustenta o contrato especial.

    O aprendiz pode fazer exatamente o mesmo trabalho dos demais empregados?

    A atividade prática faz parte da aprendizagem, mas precisa estar relacionada ao programa de formação profissional.

    Portanto, o simples fato de o aprendiz participar da rotina empresarial não caracteriza irregularidade. Essa experiência prática é componente da própria modalidade.

    O problema surge quando ele passa a ser utilizado como substituto de mão de obra regular, sem correspondência efetiva com o programa de aprendizagem, sem formação técnico-profissional metódica ou em desacordo com as demais exigências aplicáveis.

    No caso mantido pelo TST, a ausência de treinamento estruturado e acompanhamento pedagógico, somada à constatação de que a trabalhadora executava as mesmas atividades dos demais empregados, integrou o conjunto de irregularidades reconhecido pelo TRT.

    A análise, portanto, deve considerar o conjunto da contratação, e não uma tarefa isoladamente.

    RH deve revisar apenas os documentos ou também a rotina do estagiário e do aprendiz?

    Os dois.

    Esse talvez seja o principal aprendizado empresarial da decisão.

    A contratação pode nascer formalmente adequada e desenvolver problemas durante sua execução.

    Por isso, uma política preventiva não deveria se limitar à admissão. É recomendável que a empresa acompanhe periodicamente se as atividades continuam compatíveis com o estágio ou com o programa de aprendizagem, se a supervisão efetivamente ocorre, se os responsáveis conhecem os limites da modalidade e se mudanças na rotina foram corretamente avaliadas.

    Há ainda um ponto de gestão importante: o gestor direto precisa entender que estagiário e aprendiz não são simplesmente empregados com nomenclaturas diferentes.

    O RH pode estruturar corretamente a contratação e, ainda assim, a área operacional criar risco trabalhista ao modificar atividades, jornada ou responsabilidades sem considerar as regras aplicáveis.

    A prevenção, portanto, depende da integração entre RH, liderança, instituição de ensino ou entidade formadora e assessoria jurídica quando necessária.

    O que pode acontecer se o estágio ou a aprendizagem forem utilizados irregularmente?

    As consequências precisam ser analisadas separadamente.

    No estágio, a Lei 11.788/2008 determina expressamente que a manutenção de estagiários em desconformidade com a legislação caracteriza vínculo de emprego com a parte concedente para todos os fins trabalhistas e previdenciários. A lei também prevê que a instituição que reincidir na irregularidade pode ficar impedida de receber estagiários por dois anos, limitada a penalidade à filial ou agência onde ocorreu a irregularidade.

    O reconhecimento do vínculo pode repercutir nas parcelas trabalhistas e previdenciárias correspondentes à relação reconhecida, conforme o período e as circunstâncias do caso.

    Na aprendizagem, a situação é diferente porque o aprendiz já mantém contrato de trabalho. A discussão envolve a validade do enquadramento na modalidade especial e as consequências decorrentes de sua descaracterização.

    No processo divulgado pelo TST, como as duas modalidades sucessivamente utilizadas foram consideradas inválidas, o resultado foi o reconhecimento de um único vínculo de emprego durante todo o período trabalhado.

    Isso mostra por que a escolha do contrato não pode ser tratada apenas como decisão administrativa de admissão.

    Contratos de estágio e aprendizagem exigem acompanhamento durante toda a relação

    Estágio e aprendizagem são instrumentos legítimos e importantes para a formação e inserção profissional. O risco não está em utilizar essas modalidades, mas em utilizá-las sem preservar os requisitos e as finalidades que justificam seu tratamento jurídico específico.

    A decisão da 1ª Turma do TST reforça uma lição relevante para empresas e departamentos de Recursos Humanos: a regularidade precisa existir tanto nos documentos quanto na execução cotidiana da contratação.

    Termo de compromisso, programa de aprendizagem, instituição de ensino, entidade formadora e demais documentos são fundamentais. Mas precisam encontrar correspondência naquilo que efetivamente acontece dentro da empresa.

    Revisar os procedimentos de contratação, orientar gestores e acompanhar periodicamente a rotina de estagiários e aprendizes pode permitir a identificação de desvios antes que eles se transformem em passivo trabalhista.

    O Noronha & Nogueira Advogados assessora empresas na estruturação e revisão de práticas trabalhistas, com foco na prevenção de riscos e na segurança das relações de trabalho.

    Referências jurídicas principais: Lei 11.788/2008, especialmente arts. 1º, 3º e 15; CLT, especialmente art. 428; TST, 1ª Turma, processo Ag-RRAg-0100665-06.2018.5.01.0013; orientações do Ministério do Trabalho e Emprego sobre Aprendizagem Profissional, atualizadas em 2026.

  • Cálculo trabalhista incorreto pode aumentar o passivo da empresa?

    Cálculo trabalhista incorreto pode aumentar o passivo da empresa?

    Tempo de leitura: 6 minutos

    Sim. Um cálculo trabalhista incorreto pode fazer a empresa trabalhar com uma mensuração distorcida do passivo, afetando provisões, decisões sobre o processo e a previsão de desembolso. Na fase de liquidação, além disso, divergências precisam ser identificadas e discutidas no momento processual adequado.

    Divergências nos cálculos podem afetar provisões, decisões processuais e a previsibilidade financeira da empresa.

    O problema não está apenas em uma soma errada. Um cálculo pode conter diferenças relacionadas às verbas consideradas, período apurado, base de cálculo, reflexos, incidências ou critérios definidos pela decisão judicial.

    Por isso, para empresas com contencioso trabalhista, conhecer a existência dos processos não basta. É necessário compreender também quanto cada processo efetivamente representa e quais premissas sustentam esse valor.

    Por que um cálculo trabalhista incorreto pode afetar o passivo da empresa?

    Porque o valor atribuído a uma ação trabalhista pode ser utilizado pela empresa para avaliar sua exposição financeira, constituir provisões e tomar decisões relacionadas ao próprio contencioso.

    Se o número estiver superestimado ou subestimado, a informação utilizada pela gestão também poderá estar distorcida.

    Isso pode interferir, por exemplo, na avaliação financeira da carteira de processos, nas projeções de desembolso e na análise de alternativas para determinado litígio.

    A questão ganha relevância porque passivo trabalhista não deve ser acompanhado apenas como quantidade de processos. Para a empresa, também importa compreender a exposição econômica associada a eles.

    Na prática, um processo classificado corretamente do ponto de vista jurídico, mas mensurado com premissas inadequadas, pode produzir uma visão financeira igualmente inadequada do contencioso.

    O valor apresentado em um processo trabalhista está necessariamente correto?

    Não. A existência de um cálculo no processo não significa, por si só, que todas as premissas utilizadas estejam corretas ou correspondam exatamente ao que foi determinado na decisão.

    Na liquidação trabalhista, o cálculo deve transformar em valor aquilo que foi reconhecido no título judicial.

    O art. 879, § 1º, da CLT estabelece justamente que, na liquidação, não se pode modificar ou inovar a sentença liquidanda nem voltar a discutir matéria relativa à causa principal. Em outras palavras, a liquidação não serve para ampliar ou reduzir aquilo que foi decidido, mas para quantificá-lo de acordo com os parâmetros juridicamente aplicáveis. O próprio TST reproduziu essa disciplina em decisão de 2025 ao examinar a incidência do procedimento do art. 879. 

    Por isso, mesmo quando o cálculo é elaborado com auxílio de ferramenta específica, é necessário verificar se os dados e critérios utilizados correspondem ao título judicial.

    O PJe-Calc foi desenvolvido para utilização na Justiça do Trabalho como ferramenta de elaboração de cálculos trabalhistas e liquidação de sentenças, e há regras do CSJT para sua utilização na apresentação de determinados cálculos. A padronização da ferramenta, entretanto, não substitui a correta definição das premissas jurídicas inseridas no cálculo. 

    O que a empresa deve conferir nos cálculos de uma ação trabalhista?

    A conferência deve começar pelo título judicial, porque é a decisão que define quais parcelas e critérios precisam ser traduzidos em valores na liquidação.

    Conforme o caso, a análise pode envolver as verbas efetivamente deferidas, período abrangido pela condenação, bases de cálculo, reflexos, incidências, critérios de atualização e demais parâmetros estabelecidos na decisão.

    Essa distinção é importante porque uma planilha matematicamente correta ainda pode produzir um resultado juridicamente inadequado se partir de uma premissa incompatível com aquilo que foi decidido.

    Da mesma maneira, diferenças aparentemente pequenas em uma premissa podem produzir efeitos relevantes quando aplicadas a períodos extensos, múltiplas parcelas ou grande quantidade de processos.

    A revisão, portanto, não deve perguntar somente “a conta fecha?”.

    Também precisa responder:

    “A conta representa corretamente aquilo que foi decidido?”

    É justamente nesse ponto que análise jurídica e análise dos cálculos precisam conversar.

    A empresa pode contestar cálculos trabalhistas com os quais não concorda?

    Sim. Quando a legislação processual prevê oportunidade de impugnação dos cálculos, a discordância precisa ser apresentada de forma fundamentada e no momento adequado.

    No procedimento previsto no art. 879, § 2º, da CLT, elaborada a conta e tornada líquida, o juízo deve abrir às partes prazo comum de oito dias para impugnação fundamentada, com indicação dos itens e valores objeto da discordância, sob pena de preclusão. 

    Isso significa que uma divergência relevante não deve ser tratada apenas como uma observação interna da empresa.

    É necessário avaliar processualmente se existe erro, qual é a diferença, qual fundamento sustenta a discordância e qual é o momento adequado para apresentá-la.

    Há ainda uma distinção importante: o próprio TST já ressaltou que a sistemática do art. 879, § 2º, refere-se à liquidação de sentença ilíquida. Quando a sentença já é proferida com valor líquido na fase de conhecimento, a discussão processual segue dinâmica própria. 

    Por isso, não existe uma regra segura segundo a qual a empresa possa simplesmente deixar a conferência para o final do processo.

    Como os cálculos trabalhistas interferem no provisionamento da empresa?

    Os cálculos e as informações jurídicas do processo ajudam a empresa a estimar adequadamente a exposição relacionada ao contencioso, mas o provisionamento contábil não decorre automaticamente do valor apresentado em uma ação trabalhista.

    Essa distinção é fundamental.

    O CPC 25 disciplina provisões, passivos contingentes e ativos contingentes. Entre outros critérios, o pronunciamento trabalha com reconhecimento e mensuração das obrigações e estabelece que o valor reconhecido como provisão deve representar a melhor estimativa do desembolso necessário para liquidar a obrigação presente na data do balanço. 

    Portanto, valor do processo, cálculo judicial e provisão contábil não são necessariamente a mesma coisa.

    A avaliação jurídica fornece informações essenciais sobre o processo, enquanto a mensuração contábil deve observar os critérios aplicáveis ao reconhecimento e à mensuração da provisão.

    Quando as informações jurídicas ou os valores utilizados para alimentar esse processo estão incorretos ou desatualizados, a qualidade da estimativa também pode ser comprometida.

    É por isso que a gestão do passivo trabalhista exige comunicação entre áreas que, dentro da empresa, muitas vezes trabalham com a mesma contingência sob perspectivas diferentes.

    Jurídico, financeiro e contabilidade precisam trabalhar com informações compatíveis

    Sim. Uma gestão consistente do passivo trabalhista depende de informações jurídicas, financeiras e contábeis que possam ser conciliadas e atualizadas conforme o processo evolui.

    Uma decisão pode alterar a extensão da condenação. Um julgamento posterior pode modificar parte dela. A liquidação pode revelar uma exposição diferente daquela estimada anteriormente. Um acordo pode encerrar o risco em condições distintas das projetadas.

    Essas mudanças não deveriam permanecer restritas ao acompanhamento processual.

    A matéria que motivou esta análise apresentou um exemplo interessante. Na revisão de dez processos trabalhistas de uma instituição financeira, foram identificadas divergências em dois casos que, somadas, chegaram a R$ 357 mil acima do valor apontado pela revisão como devido. A própria fonte ressalvou que se tratava de uma amostra pequena e que o resultado não poderia ser projetado para outras carteiras.

    Esse dado não permite concluir que divergências semelhantes ocorram na mesma proporção em outras empresas.

    Ele demonstra, porém, algo relevante para a gestão: diferenças de cálculo podem assumir dimensão financeira material e justificam controles compatíveis com a exposição da empresa.

    Revisar cálculos trabalhistas é parte da gestão do contencioso

    A revisão dos cálculos não deveria ser tratada apenas como uma providência operacional próxima ao pagamento. Ela integra a gestão jurídica e financeira do processo.

    Em uma gestão estruturada do contencioso, é importante acompanhar não apenas quantidade de ações, pedidos ou fases processuais, mas também a evolução econômica dos casos relevantes.

    Isso permite identificar diferenças entre valores inicialmente estimados e a exposição que se revela durante o processo, avaliar mudanças que possam repercutir no provisionamento e tomar decisões com informações mais consistentes.

    Também permite detectar antecipadamente situações que merecem análise específica, em vez de descobrir uma divergência apenas quando o desembolso se aproxima.

    Para empresas com volume relevante de reclamações trabalhistas, essa visão pode ser ampliada para a própria carteira: processos semelhantes, teses recorrentes e diferenças de critérios podem revelar pontos que merecem atenção não apenas no contencioso, mas também na operação trabalhista que está originando as demandas.

    Nesse sentido, o cálculo deixa de ser apenas o resultado financeiro de uma ação e passa a ser também uma fonte de informação para a gestão do risco trabalhista.

    A gestão do passivo trabalhista começa pela qualidade da informação

    A empresa só consegue tomar decisões consistentes sobre seu contencioso quando conhece não apenas quais processos possui, mas também o que efetivamente está sendo discutido, quais decisões foram proferidas e como essas decisões estão sendo traduzidas em valores.

    A análise jurídica dos cálculos pode identificar divergências entre o título judicial e a conta apresentada, permitir a adoção das medidas processuais cabíveis no momento adequado e melhorar a qualidade das informações utilizadas na gestão do passivo.

    O Noronha & Nogueira Advogados atua na assessoria trabalhista empresarial e no acompanhamento estratégico do contencioso, auxiliando empresas na avaliação jurídica de riscos e passivos trabalhistas e na tomada de decisões relacionadas às demandas judiciais.

    Quando valores relevantes estão envolvidos, integrar processo, cálculo e gestão do passivo deixa de ser apenas uma questão operacional e passa a fazer parte da estratégia jurídica da empresa.

    Referências

    Consolidação das Leis do Trabalho, art. 879.

    Tribunal Superior do Trabalho, aplicação do art. 879 da CLT em decisão publicada em 2025.

    Conselho Superior da Justiça do Trabalho, regulamentação relacionada à apresentação de cálculos por meio do PJe-Calc.

    Comitê de Pronunciamentos Contábeis, CPC 25, Provisões, Passivos Contingentes e Ativos Contingentes.

  • A empresa pode demitir um empregado que está em tratamento contra o câncer?

    A empresa pode demitir um empregado que está em tratamento contra o câncer?

    Tempo de leitura: 7 minutos

    Sim. O diagnóstico de câncer não cria, por si só, uma estabilidade geral que impeça toda dispensa. Entretanto, o TST considera a neoplasia maligna uma doença grave capaz de atrair a presunção de dispensa discriminatória prevista na Súmula 443. Quando a empresa conhece a doença e decide dispensar o empregado, pode ter de demonstrar que o desligamento ocorreu por motivo legítimo e sem relação com sua condição de saúde.

    Câncer não cria estabilidade automática, mas a dispensa pode ser considerada discriminatória se a empresa não demonstrar motivo legítimo

    Essa diferença é fundamental para o empregador.

    O problema jurídico não deve ser resumido à afirmação de que “empregado com câncer não pode ser demitido”. A questão é saber por que aquele empregado foi dispensado, o que a empresa sabia sobre sua condição de saúde e quais elementos comprovam o motivo efetivo do desligamento.

    Uma decisão recente da 2ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho reforçou justamente esse ponto ao determinar a reintegração de um professor universitário dispensado durante tratamento contra um linfoma não-Hodgkin. 

    Empregado com câncer tem estabilidade no emprego?

    Não. O diagnóstico de câncer, isoladamente, não cria uma estabilidade provisória geral no emprego. O que pode existir é a presunção de que determinada dispensa foi discriminatória, quando presentes os requisitos reconhecidos pela jurisprudência do TST.

    São situações juridicamente diferentes.

    Estabilidade significa possuir uma garantia de emprego decorrente de determinada situação prevista no ordenamento jurídico.

    Já a Súmula 443 do TST estabelece que se presume discriminatória a despedida de empregado com HIV ou outra doença grave que suscite estigma ou preconceito. Reconhecida a invalidade do ato, o enunciado assegura a reintegração.

    A jurisprudência do Tribunal Superior do Trabalho vem reconhecendo a neoplasia maligna como doença grave que pode suscitar estigma e preconceito, atraindo essa presunção. 

    Por isso, dizer simplesmente que “câncer gera estabilidade” não descreve corretamente o problema jurídico.

    A empresa sabia que o empregado tinha câncer. Pode demiti-lo?

    Sim. Pode haver dispensa, mas a empresa deve estar preparada para demonstrar de forma consistente que a decisão decorreu de motivo legítimo e não da doença do empregado.

    Quando incide a Súmula 443, a lógica probatória muda.

    Não basta exigir que o empregado prove diretamente que alguém dentro da empresa decidiu dispensá-lo porque ele tinha câncer. A jurisprudência trabalha com uma presunção relativa de discriminação, que pode ser afastada por prova em sentido contrário produzida pelo empregador. 

    Isso torna especialmente delicadas as dispensas realizadas durante o tratamento ou em contexto próximo ao conhecimento da doença.

    A empresa pode possuir razões empresariais legítimas para encerrar determinado contrato. O risco está em não conseguir demonstrá-las quando a dispensa for questionada.

    Baixo desempenho pode justificar a dispensa de um empregado com câncer?

    Pode, desde que o baixo desempenho seja real e a empresa consiga demonstrar que esse foi efetivamente o motivo da dispensa, sem relação discriminatória com a doença.

    Esse ponto aparece com bastante clareza no caso recente julgado pela 2ª Turma do TST.

    A instituição de ensino sustentou que havia reclamações de alunos sobre a condução das aulas. O TST, porém, considerou as alegações genéricas, sem critérios objetivos suficientes ou histórico de punições disciplinares que sustentasse a justificativa apresentada.

    Para o empregador, existe uma lição prática importante.

    Se avaliações de desempenho somente aparecem depois que surge a discussão judicial, ou se a empresa afirma que existiam problemas profissionais relevantes sem possuir registros coerentes com essa narrativa, a justificativa pode perder força.

    Avaliações, feedbacks, advertências e outros registros não devem ser fabricados para justificar uma dispensa já decidida. Devem refletir a gestão efetivamente realizada ao longo da relação de emprego.

    Reestruturação ou redução de pessoal pode justificar a dispensa?

    Sim. Uma razão econômica, organizacional ou estrutural efetivamente comprovada pode ser relevante para afastar a presunção de que a dispensa ocorreu por causa da doença.

    Mas novamente a simples alegação não basta.

    No caso do professor, a instituição também afirmou que havia redução de turmas e diminuição da carga horária. Segundo a decisão divulgada, não houve comprovação adequada da redução no número de estudantes que sustentaria essa justificativa. 

    Isso não significa que uma empresa esteja impedida de incluir um empregado com câncer em uma reestruturação verdadeira.

    Significa que, quando existe uma presunção de discriminação a ser afastada, a coerência entre a razão apresentada e as provas disponíveis ganha importância decisiva.

    Uma redução efetiva de quadro, encerramento de atividade, eliminação do posto, reorganização empresarial ou outro motivo legítimo pode compor essa demonstração, desde que corresponda ao que realmente ocorreu.

    E se a empresa não soubesse que o empregado estava com câncer?

    O desconhecimento da doença no momento da dispensa pode afastar a presunção de que o desligamento ocorreu por motivo discriminatório, porque a empresa não pode discriminar o empregado em razão de uma condição que comprovadamente desconhecia.

    Esse ponto também já foi reconhecido pelo TST.

    Em precedente envolvendo câncer de mama, a Corte manteve decisão na qual ficou estabelecido que tanto a empresa quanto a própria empregada desconheciam a doença quando ocorreu a rescisão. Em outro julgamento envolvendo câncer de tireoide, o Tribunal reiterou que a presunção pode ser afastada quando a empresa não tinha conhecimento da enfermidade no momento da comunicação da dispensa.

    Portanto, a existência do diagnóstico não basta, isoladamente, para concluir que toda dispensa é discriminatória.

    O conhecimento da empresa sobre a condição de saúde é um elemento relevante da análise.

    A empresa pode demitir o empregado enquanto ele está fazendo tratamento contra o câncer?

    Sim. O tratamento contra o câncer não cria automaticamente uma proibição absoluta de dispensa, mas realizar o desligamento durante esse período exige análise especialmente cuidadosa quando a empresa conhece a doença.

    O momento da dispensa pode integrar o conjunto de circunstâncias considerado pela Justiça do Trabalho.

    No caso recentemente analisado pela 2ª Turma, o professor foi diagnosticado em março de 2020. Em julho daquele ano, recebeu uma comunicação de dispensa que foi cancelada no dia seguinte. O contrato permaneceu até fevereiro de 2021, quando ocorreu o desligamento definitivo. O docente afirmou ainda que houve esvaziamento progressivo de suas funções durante esse período. 

    O TST também já analisou outros casos em que a proximidade entre tratamento, retorno ao trabalho e dispensa foi juridicamente relevante. 

    Isso não cria uma quantidade automática de dias ou meses durante os quais a empresa esteja proibida de dispensar.

    O que existe é a necessidade de avaliar o contexto completo.

    O que a empresa precisa comprovar para afastar a alegação de dispensa discriminatória?

    A empresa precisa apresentar elementos capazes de demonstrar que o desligamento teve causa legítima e independente da doença do empregado.

    A prova necessária dependerá da justificativa utilizada.

    Se o motivo é desempenho, deve existir coerência com avaliações e registros anteriores.

    Se é reestruturação, os elementos empresariais devem demonstrar que a reorganização efetivamente ocorreu.

    Se é redução do quadro, a empresa precisa demonstrar a realidade dessa redução e os critérios utilizados.

    Se houve falta disciplinar, os fatos e documentos correspondentes precisam sustentar essa versão.

    O objetivo não é criar documentos para preparar uma futura defesa judicial. É garantir que a decisão empresarial tenha fundamento real, critérios coerentes e registros compatíveis com aquilo que efetivamente aconteceu.

    O precedente recente é particularmente relevante porque o TST considerou insuficientes justamente justificativas que não estavam apoiadas, segundo a relatora, por elementos objetivos robustos.

    A idade do empregado também pode influenciar a análise?

    Sim. Quando existem diferentes fatores de vulnerabilidade no mesmo caso, eles podem ser analisados conjuntamente na investigação de uma possível discriminação.

    No processo do professor universitário, o empregado tinha 65 anos quando foi diagnosticado.

    A relatora considerou conjuntamente a idade avançada e a doença grave e aplicou o Protocolo para Atuação e Julgamento com Perspectiva Antidiscriminatória, Interseccional e Inclusiva. Segundo a decisão divulgada, esses fatores não deveriam ser examinados isoladamente porque sua sobreposição poderia ampliar a vulnerabilidade do trabalhador. 

    Esse aspecto merece atenção empresarial porque a análise judicial de uma dispensa pode não se limitar a uma única característica do empregado.

    O que pode acontecer se a dispensa for considerada discriminatória?

    A dispensa discriminatória pode ser anulada e gerar reintegração, pagamento das remunerações correspondentes ao período de afastamento e indenização por dano moral, conforme as circunstâncias e os pedidos formulados no processo.

    A Lei 9.029/1995 estabelece que o rompimento discriminatório da relação de trabalho, além da reparação por dano moral, permite ao empregado optar entre a reintegração com ressarcimento integral de todo o período de afastamento ou a percepção, em dobro, da remuneração desse período, com os acréscimos legais previstos na norma. 

    No julgamento divulgado em outubro de 2026, a 2ª Turma determinou a reintegração imediata do professor, restabeleceu sua carga horária de 31 horas semanais e fixou indenização de R$ 20 mil por danos morais. 

    Portanto, a consequência de uma decisão empresarial mal fundamentada pode ultrapassar significativamente o simples pagamento das verbas rescisórias.

    O empregado está apto para trabalhar. Isso elimina o risco de dispensa discriminatória?

    Não. Estar apto para o trabalho e estar protegido contra uma dispensa discriminatória são questões diferentes.

    A aptidão indica, em princípio, a possibilidade de exercer as atividades profissionais.

    A discussão sobre discriminação investiga outra questão: qual foi a verdadeira razão da dispensa?

    Um empregado pode estar trabalhando normalmente e ainda assim possuir doença grave conhecida pela empresa. Se houver incidência da presunção estabelecida pela Súmula 443, será necessário analisar se a empresa possui elementos suficientes para demonstrar motivo legítimo e independente da enfermidade.

    Da mesma forma, a existência de tratamento médico não transforma automaticamente toda dispensa em discriminatória.

    Mais uma vez, o contexto e as provas são determinantes.

    O que o RH deve verificar antes de dispensar um empregado com câncer?

    Antes da dispensa, o RH deve verificar se a empresa conhece a condição de saúde, qual é o motivo concreto do desligamento e se existem elementos anteriores e consistentes que comprovem essa razão.

    Não se trata de criar um procedimento para “blindar” uma demissão.

    Trata-se de evitar que uma decisão sensível seja tomada sem que a própria empresa consiga explicar e demonstrar por que ela ocorreu.

    Em uma análise preventiva, merecem atenção a situação atual do contrato, eventual afastamento, tratamento conhecido pela empresa, histórico profissional, avaliações existentes, medidas disciplinares anteriores quando pertinentes, eventual reestruturação, critérios utilizados para redução do quadro e proximidade temporal entre acontecimentos relacionados à saúde e o desligamento.

    Também é importante verificar se existem outros fatores que possam ser relevantes para uma análise de discriminação.

    Quando a dispensa envolve empregado com doença grave conhecida, a decisão não deveria ser tratada como uma rescisão comum sem análise prévia do contexto jurídico e probatório.

    Dispensa de empregado com câncer exige análise antes da decisão, não depois do processo

    O julgamento recente do TST não criou uma regra segundo a qual empregados com câncer jamais possam ser dispensados.

    Ele reforça algo diferente e muito relevante para as empresas: quando existe uma doença grave conhecida e incide a presunção de discriminação, a empresa precisa conseguir demonstrar que a dispensa decorreu de razão legítima e independente da condição de saúde.

    No caso do professor, o TST considerou insuficientes as justificativas apresentadas pela instituição e reconheceu a dispensa discriminatória. 

    Para empregadores e departamentos de RH, a prevenção começa antes do desligamento.

    Se a empresa possui um motivo legítimo, ele precisa existir de fato e estar apoiado em elementos coerentes com a realidade da relação de trabalho.

    Assessoria trabalhista preventiva em decisões de desligamento

    A dispensa de um empregado em tratamento contra o câncer pode envolver presunção de discriminação, distribuição diferenciada do ônus da prova, reintegração e responsabilidade por danos decorrentes de uma decisão considerada discriminatória.

    Por isso, a análise jurídica anterior ao desligamento permite verificar o contexto do contrato, as razões empresariais existentes, a documentação disponível e os riscos específicos da decisão.

    O Noronha & Nogueira Advogados assessora empresas e departamentos de RH na análise preventiva de desligamentos, gestão de empregados com condições de saúde e prevenção de passivos trabalhistas.

    Fontes jurídicas e institucionais

    Tribunal Superior do Trabalho, Súmula 443 e jurisprudência sobre dispensa discriminatória de empregados com neoplasia maligna;

    Lei nº 9.029/1995, especialmente art. 4º; decisão da 2ª Turma do TST divulgada em outubro de 2026 sobre a reintegração de professor universitário em tratamento contra câncer. 

  • Apostas durante o expediente: o que a empresa pode fazer quando o problema chega ao ambiente de trabalho?

    Apostas durante o expediente: o que a empresa pode fazer quando o problema chega ao ambiente de trabalho?

    Tempo de leitura: 7 minutos

    Sim. A empresa pode adotar medidas quando o empregado faz apostas durante o expediente e a conduta interfere no trabalho ou viola regras internas. Dependendo da frequência, da gravidade e das circunstâncias, podem existir desde medidas de orientação e disciplina até situações que justifiquem a rescisão por justa causa. Se houver indícios ou diagnóstico de transtorno do jogo, porém, a empresa precisa distinguir a infração funcional de uma possível condição de saúde antes de decidir como agir.

    Essa distinção se tornou especialmente relevante diante do aumento dos problemas relacionados aos jogos de apostas e de seus reflexos nas relações de trabalho.

    O transtorno do jogo é reconhecido como transtorno de comportamento aditivo pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). O Ministério da Saúde aponta, entre os sinais de alerta, dificuldade de controlar as apostas, comprometimento do salário ou das economias, alterações de humor e abandono de atividades importantes. 

    Para empresas e departamentos de RH, isso cria uma questão delicada: quando o problema aparece no trabalho, é preciso identificar se a empresa está diante de uma infração contratual, de uma condição de saúde ou de situações que coexistem.

    Meu empregado está fazendo apostas durante o expediente. A empresa pode adverti-lo?

    Sim. A empresa pode adotar medidas disciplinares quando o empregado utiliza o horário de trabalho para apostar e essa conduta viola regras internas, prejudica suas atividades ou caracteriza descumprimento das obrigações decorrentes do contrato de trabalho.

    O fato de a aposta ser realizada pelo celular particular não transforma automaticamente o período de trabalho em tempo disponível para atividades pessoais sem qualquer limite.

    A análise, entretanto, deve considerar o que efetivamente ocorreu. Não é a mesma situação um episódio isolado sem repercussão relevante e uma conduta reiterada que provoca atrasos, abandono das atividades, queda de desempenho ou descumprimento de orientações expressas da empresa.

    Dependendo das circunstâncias, podem ser avaliadas medidas como orientação, advertência e suspensão. A gradação da penalidade deve considerar a gravidade da conduta, eventual reincidência, as regras internas e as provas disponíveis.

    Por isso, antes de aplicar uma punição, a empresa deve conseguir responder objetivamente: o que o empregado fez, quando ocorreu, qual regra foi descumprida e qual foi a repercussão para o trabalho?

    Apostar durante o horário de trabalho pode gerar justa causa?

    Sim, uma conduta relacionada a apostas pode resultar em justa causa, mas não é juridicamente seguro afirmar que qualquer aposta realizada durante o expediente autorize automaticamente a penalidade máxima.

    O artigo 482 da CLT prevê diferentes hipóteses de justa causa e inclui expressamente, na alínea “l”, a prática constante de jogos de azar. Dependendo dos fatos, outras hipóteses do próprio artigo também podem ser relevantes, como desídia, indisciplina, insubordinação ou ato de improbidade.

    A expressão utilizada pela CLT é importante: a lei fala em prática constante de jogos de azar. Portanto, a existência dessa previsão não deve ser convertida em uma regra segundo a qual uma única aposta pelo celular sempre resultará em justa causa.

    A Justiça do Trabalho já analisou casos em que as apostas ocorreram juntamente com outras irregularidades.

    Em Rondônia, por exemplo, foi mantida a justa causa de uma empregada que fazia apostas durante o expediente em contexto que também envolvia atrasos e problemas relacionados à prestação dos serviços. A decisão demonstra a importância de analisar o conjunto das condutas, e não apenas a existência de um aplicativo de apostas no celular do empregado.

    Para a empresa, a consequência é clara: quanto mais grave a penalidade pretendida, mais importante é a existência de fatos e provas capazes de demonstrar a falta praticada.

    O empregado diz que é viciado em apostas. Isso impede a empresa de aplicar uma medida disciplinar?

    Não. A alegação de vício em apostas, por si só, não impede automaticamente a aplicação de medidas disciplinares nem torna lícita qualquer conduta praticada pelo empregado.

    Ao mesmo tempo, a empresa não deve ignorar uma informação concreta de que o empregado possa estar enfrentando um transtorno de saúde.

    Esse é um dos pontos mais importantes para diferenciar comportamento relacionado a apostas de transtorno do jogo.

    O Ministério da Saúde define o jogo patológico, também chamado de transtorno do jogo, como problema de saúde caracterizado pela dificuldade de controlar o impulso de apostar apesar dos prejuízos financeiros, familiares, profissionais e emocionais. 

    Isso significa que apostar e possuir diagnóstico de transtorno do jogo não são situações equivalentes.

    Também significa que o diagnóstico não funciona como autorização geral para descumprir obrigações contratuais.

    Quando a empresa recebe informação concreta sobre possível adoecimento, especialmente acompanhada de documentação médica, afastamento ou tratamento, a decisão disciplinar exige uma análise mais cuidadosa da relação entre o quadro de saúde e a conduta que está sendo avaliada.

    O empregado desviou dinheiro da empresa para apostar. A ludopatia impede a justa causa?

    Não necessariamente. A existência ou alegação de transtorno do jogo não afasta automaticamente a possibilidade de justa causa quando o empregado pratica uma falta grave, como apropriação ou desvio de valores.

    Nesses casos, a empresa precisa analisar separadamente dois elementos: a condição de saúde apresentada pelo empregado e a falta contratual que efetivamente ocorreu.

    A discussão já chegou à Justiça do Trabalho em casos envolvendo empregados que utilizaram valores de terceiros ou da própria empresa para financiar apostas. Há decisões mantendo a justa causa quando a prova produzida não demonstrou relação suficiente entre o transtorno alegado e a conduta que fundamentou a dispensa.

    Esse tipo de situação também mostra por que a empresa não deve partir de conclusões automáticas em nenhuma direção.

    Nem o diagnóstico deve ser ignorado, nem uma falta grave deixa de existir simplesmente porque há uma condição de saúde alegada.

    A documentação dos fatos, a natureza da conduta, as provas existentes e as informações médicas efetivamente conhecidas pela empresa podem ser determinantes para a decisão.

    Ludopatia é doença?

    Sim. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo e pode comprometer a capacidade da pessoa de controlar o impulso de apostar, mesmo diante de consequências negativas. 

    O reconhecimento médico da condição é relevante para as relações de trabalho porque o problema pode repercutir no desempenho profissional e, em determinados casos, produzir incapacidade laboral.

    Isso, porém, não autoriza o RH a diagnosticar um empregado.

    Mudanças de comportamento, problemas financeiros, apostas frequentes ou queda de produtividade podem indicar que existe uma situação que merece atenção, mas o diagnóstico de transtorno do jogo pertence aos profissionais de saúde.

    A empresa deve administrar os fatos que pertencem à relação de trabalho e tratar informações de saúde com a cautela e a confidencialidade correspondentes.

    Empregado com ludopatia pode ser afastado pelo INSS?

    Sim, desde que o transtorno provoque incapacidade para o trabalho e estejam presentes os requisitos previdenciários aplicáveis. O diagnóstico de ludopatia, isoladamente, não significa afastamento automático.

    O ponto determinante para a concessão de benefício por incapacidade não é simplesmente a existência da doença, mas sua repercussão sobre a capacidade laboral.

    O crescimento dos afastamentos relacionados ao transtorno do jogo foi um dos fatores que levaram o tema ao debate trabalhista e empresarial em 2026. Paralelamente, o Ministério da Saúde ampliou a estrutura de atendimento às pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, inclusive com teleatendimento especializado em saúde mental. 

    Se o empregado apresentar atestado ou documentação médica indicando incapacidade, a empresa deve observar os procedimentos trabalhistas e previdenciários correspondentes ao afastamento, em vez de tratar a situação apenas como problema de comportamento.

    Ter ludopatia dá estabilidade no emprego?

    Não. O simples diagnóstico de transtorno do jogo não cria automaticamente estabilidade provisória no emprego.

    É necessário separar questões que frequentemente aparecem misturadas.

    Uma coisa é o empregado possuir uma doença. Outra é existir incapacidade para o trabalho. Outra é haver eventual relação entre a doença e o trabalho. E outra, ainda, é uma dispensa possuir caráter discriminatório.

    A Súmula 443 do TST estabelece presunção de dispensa discriminatória para empregado com HIV ou outra doença grave que suscite estigma ou preconceito. Isso não significa que qualquer doença produza automaticamente essa presunção, nem que estar doente corresponda, por si só, a possuir garantia de emprego. O próprio TST já destacou essa distinção ao analisar casos de dispensa de empregados adoecidos. 

    Por isso, não é juridicamente seguro estabelecer uma regra geral de estabilidade para o empregado com ludopatia.

    Se a empresa sabe que existe diagnóstico, tratamento, incapacidade ou afastamento e pretende realizar o desligamento, as circunstâncias concretas devem ser avaliadas antes da decisão.

    A empresa pode investigar se o empregado tem vício em apostas?

    A empresa pode apurar fatos relacionados ao trabalho, mas não deve transformar a investigação de uma possível infração funcional em investigação indiscriminada da vida privada ou da saúde do empregado.

    Se existem apostas durante o expediente, movimentações irregulares de recursos corporativos, descumprimento de regras ou utilização inadequada de equipamentos da empresa, esses fatos podem ser apurados pelos meios lícitos disponíveis.

    Outra coisa é tentar descobrir hábitos particulares, dívidas, histórico médico ou informações pessoais sem relação necessária com a situação investigada.

    Para o RH, a pergunta central deve ser: qual fato relacionado ao contrato de trabalho precisa ser esclarecido?

    Esse limite ajuda a empresa a investigar aquilo que efetivamente importa para a relação de emprego sem transformar uma questão disciplinar em exposição indevida da vida pessoal do trabalhador.

    O que a empresa deve fazer antes de punir um empregado por condutas relacionadas a apostas?

    A empresa deve primeiro identificar e documentar a conduta efetivamente ocorrida e, somente depois, definir qual resposta é juridicamente adequada ao caso.

    É importante verificar registros disponíveis de forma lícita, regras internas aplicáveis, eventual reincidência, orientações anteriores, impacto sobre o trabalho e gravidade dos fatos.

    Se houver notícia de transtorno do jogo, documentação médica ou afastamento, essa informação também precisa entrar na análise antes de uma decisão mais grave.

    O erro empresarial pode acontecer nos dois extremos: ignorar faltas contratuais relevantes porque o empregado menciona uma doença ou aplicar imediatamente a penalidade máxima sem avaliar uma condição de saúde que já era conhecida pela empresa.

    Em situações que envolvam justa causa, alegação de transtorno do jogo, afastamento previdenciário, possível dispensa discriminatória ou utilização indevida de valores da empresa, a análise jurídica prévia pode reduzir o risco de uma decisão disciplinar posteriormente questionada na Justiça do Trabalho.

    Apostas e ludopatia exigem procedimentos mais claros das empresas

    A discussão sobre apostas nas relações de trabalho ganhou relevância suficiente para chegar, em 2026, ao debate institucional envolvendo integrantes do Tribunal Superior do Trabalho.

    Ao mesmo tempo, o cenário brasileiro das apostas passou por mudança regulatória recente, com a proibição das bets por medida provisória editada em setembro de 2026. A mudança não elimina os problemas de saúde relacionados ao transtorno do jogo nem as situações trabalhistas decorrentes de comportamentos ligados a apostas já existentes. 

    Para as empresas, o tema reforça a importância de regras internas claras sobre utilização do tempo de trabalho, celulares, sistemas, recursos corporativos e condutas incompatíveis com as atividades profissionais.

    Também exige preparo do RH para reconhecer quando uma situação deixa de ser exclusivamente disciplinar e passa a envolver informações concretas sobre saúde e incapacidade laboral.

    Orientação jurídica antes da decisão pode evitar novos conflitos

    Quando apostas começam a interferir no trabalho, a empresa não deve partir automaticamente nem para a justa causa nem para a conclusão de que toda conduta decorre de ludopatia.

    É preciso identificar os fatos, preservar as provas, verificar as regras aplicáveis e compreender se existe uma questão disciplinar, uma condição de saúde ou a coexistência das duas situações.

    O Noronha & Nogueira Advogados assessora empresas e departamentos de RH na análise de medidas disciplinares, afastamentos, desligamentos e demais situações que envolvem a gestão das relações de trabalho e a prevenção de passivos trabalhistas.

    Fontes jurídicas e institucionais

    Consolidação das Leis do Trabalho, especialmente no art. 482; 

    Ministério da Saúde, materiais sobre transtorno do jogo e problemas relacionados a apostas; 

    Tribunal Superior do Trabalho, jurisprudência sobre dispensa discriminatória e Súmula 443; 

    Decisões da Justiça do Trabalho envolvendo condutas relacionadas a apostas.